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Exércitos de um homem só

  • Por Luigi Poniwass

Começou. Aos primeiros raios do sol, como em todo duelo que se preza, Kid Baby Bush sacou primeiro. Híbrido de caubói com Rambo, apresentou um “aperitivo” de suas armas: 40 bombas sobre Bagdá, sendo uma de 1 tonelada, supostamente sobre QGs do alto comando iraquiano e possíveis esconderijos do oponente, a chamada Operação Decapitação. Do outro lado, com a cabeça bem firme sobre o pescoço, Saddam Hussein ungiu-se como representante agredido da “grande nação árabe”, conclamou seu povo para a luta, prometeu resistir.

Assistimos aos primeiros lances de uma guerra surreal, desencadeada pelo desejo de um único homem (o poodle Tony Blair e o pinscher José María Aznar são café-com-leite), que mobiliza centenas de milhares de soldados e sua colossal máquina de guerra contra outro único homem. E à revelia do que pensam aliados importantes e a maioria esmagadora da humanidade.

OK, já foi dito e repetido à exaustão que Saddam também não é flor que se cheire, é um ditador sanguinário, etc. e tal, da mesma forma como já foi repisado que outros tiranos contaram não só com a condescendência, como também com o apoio político e financeiro do Tio Sam, para que pudessem cometer suas atrocidades sem ser incomodados.

Mas o bizarro é o fato de não ser uma guerra, mas um duelo. E absurdamente desigual. Se quisesse, Bush poderia esmagar Saddam Hussein “como um inseto” (como gostam os americanos), num único lance. É evidente porém que ele não será estraga-prazeres a esse ponto. Vai querer justificar a gigantesca mobilização militar, experimentar seus brinquedinhos e oferecer um pouco de diversão aos seus bem-nutridos soldados.

E quem paga a conta? Primeiro, os desgraçados civis iraquianos, que há mais de vinte anos lutam para sobreviver às encrencas arrumadas por seu líder e ao castigo imposto pela ONU. Em seguida, os pobres-diabos do exército do Iraque, que têm três opções: ou se resignam ao papel de bucha de canhão, ou se humilham ao inimigo ou enfrentam o fio da espada do próprio comandante. Os países vizinhos, que vão precisar se virar com hordas de refugiados. E por último, o mundo inteiro, pelos arranhões nas relações das grandes potências, pelo esfacelamento da ONU, as turbulências no comércio do petróleo e pela insegurança em relação ao “próximo alvo” do caubói. Sem falar que Baby Bush já avisou que os “amiguinhos” que não quiseram participar da brincadeira vão ter que ajudar a limpar a sujeira e a consertar o que foi quebrado.

E o pior é que momentos antes de Bush dar o primeiro tiro, aqui no Brasil o jornalista Francisco Adorno apresentava no Jornal da Cultura a singela solução. Da mesma forma como a guerra se resume à luta de um homem contra outro, um único homem poderia ter evitado o conflito: João Paulo II. Se ao invés de rezar pela paz, o sumo pontífice tivesse ido a Bagdá, não para servir de escudo humano a Saddam Hussein, mas para proteger o povo iraquiano, o “devoto” Baby Bush ficaria num mato sem cachorro. Seria uma aula prática dos ensinamentos cristãos, o exemplo máximo de tolerância, coragem e desprendimento, e a oportunidade para encerrar o seu pontificado com chave de ouro. Pena que agora é tarde.

Luigi Poniwass (luigi@pron.com.br) é repórter do Almanaque em O Estado.

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