Rio (AG)

– A julgar pelas projeções do Banco Central (BC), o ano que vem será muito mais próspero do que esperam bancos, consultorias e, até mesmo, empresas do setor real da economia. Nos dois únicos documentos oficiais em que o BC já divulgou suas estimativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2004, o resultado está bem abaixo da meta de inflação, de 5,5% – o último relatório de inflação, por exemplo, prevê variação de apenas 4,1%. Além do benefício evidente de que a inflação, em um ano e meio, pode voltar aos níveis pré-desvalorização do real, o cálculo abre espaço para uma queda forte dos juros – leia-se retomada do crescimento econômico – a partir do próximo semestre.

“Tudo caminha para que 2004 seja um ano melhor, mas não podemos comemorar a vitória antes da hora. A queda do dólar ajuda, a economia está morna, as reformas estão avançando, mas a inflação caiu menos do que esperávamos. Nosso lema ainda é firmeza e serenidade”, receita o diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn.

Tanto no relatório de inflação quanto na carta aberta do presidente do BC, Henrique Meirelles, ao ministro da Fazenda, Antônio Palocci, as estimativas para o IPCA tomam por base juros básicos de 26,5% ao ano e dólar a R$ 3,40. Com isso, a inflação de 2004 equivaleria à metade da projeção média apurada pelo BC em 77 bancos e consultorias e 46 grandes empresas. Os analistas, diz Goldfajn, são sempre mais pessimistas que o BC. Além disso, embutem nos cálculos uma trajetória de queda dos juros, que o BC não pode sequer insinuar.

“O mercado não se deu conta, mas há um espaço enorme para a queda dos juros a partir do segundo semestre, quando o BC começa a mirar a meta de inflação de 2004. Se tudo continuar como está, é claro”, diz o economista José Júlio Senna, sócio da MCM, uma das poucas consultorias que usam o modelo do BC em suas projeções de inflação.

Além da queda do dólar (que desde a semana passada se mantém abaixo de R$ 3) e na cotação do petróleo (que impacta os combustíveis), pesa a favor do IPCA mais baixo o recuo nas projeções para os índices gerais de preços (os IGPs, da Fundação Getúlio Vargas). Essas taxas, que corrigem boa parte das tarifas administradas, como energia elétrica e telecomunicações, devem apresentar em 2004 metade da variação esperada para este ano e um terço do resultado de 2002. Diante disso, abrem-se perspectivas de queda expressiva dos juros básicos, que de outubro a fevereiro subiram 8,5 pontos percentuais. O economista Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio, calcula que se a inflação em 2004 ficar próxima de 4%, a Selic (hoje em 26,5% ao ano) pode cair mais de dez pontos percentuais. “Com uma inflação tão baixa, o BC poderia reduzir a Selic para 16%, sem mexer no nível do juro real”, aponta.

O corte na Selic permitiria a recuperação mais rápida da atividade econômica. Assim, em 2004 o País poderia crescer acima dos 3% esperados por bancos e grandes empresas. Economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Rogério Studart diz que a queda dos juros iniciará um círculo virtuoso, capaz de trazer de volta ao País o investimento direto, acelerar o crescimento e deter a valorização do real em benefício das exportações.

“E o crescimento melhoraria o quadro fiscal. Num sinal de austeridade, o governo poderia manter o superávit primário acima da meta de 4,25%”, diz Studart, que defende redução de dois pontos percentuais da Selic já a partir deste mês.