Gerar uma atividade econômica para a população do litoral e ao mesmo tempo colaborar com a preservação do meio ambiente. Esse é o objetivo da maricultura (também conhecida como aquicultura), um trabalho que ainda está em sua fase inicial no litoral paranaense, mas que vem chamando a atenção tanto de quem retira do mar o seu sustento como de quem deseja investir em uma atividade lucrativa. Diferente da atividade pesqueira, que é extrativista, a maricultura aposta no cultivo de diversos organismos marinhos, com destaque especial para a produção de ostras nativas, produto que tem boa aceitação no mercado.

O advogado, produtor e presidente da Associação Guaratubana de Maricultores (Aguamar), Nereu de Oliveira, afirma que o interesse por esse trabalho surgiu por acaso. Ele conta que, quando comprou um sítio na localidade do Cabaraquara, em Guaratuba, o antigo dono tinha uma pequena produção de ostras. “Isso me chamou a atenção e vi que poderia ser um trabalho interessante tanto do ponto de vista econômico como ambiental e social. Procurei me especializar, fazer cursos, conversar com aquicultores de outras cidades e enxerguei aqui uma ótima oportunidade”, diz.

Para aproveitar a estrutura, Oliveira criou ainda um restaurante para servir o produto e mostra, para quem se interessar, o cultivo das ostras. “Mostro para os clientes que a ostra servida é fresca e de qualidade, sempre preservando o meio ambiente”, revela. Ainda segundo o produtor, a cadeia produtiva do molusco está estimada entre seis a 10 mil dúzias por ano, sendo 80% deste total vendido durante a temporada.

Um dos pioneiros em maricultura em Guaratuba, Mauro Francisco Maia explica que, antes de se aventurar nesse ramo, trabalhava como pescador de camarão. Contudo, há 10 anos, ele optou pela troca de atividade e diz que não se arrepende de virar um produtor de ostras e também de camarão para isca de pescaria. “No começo foi bem difícil. Não havia fornecimento de ‘sementes’ de ostras para iniciar o cultivo. Persisti nessa atividade por idealismo, por saber que esse é o melhor caminho para a preservação da vida marinha. Hoje em dia esse é o meu trabalho e só pesco como um meio de subsistência, não para ganhar dinheiro”, garante. Para ele, deveria haver incentivo maior do poder público para que essa atividade possa crescer. Maia acredita que deve haver oportunidades e meios para que o pescador passe a ser um aquicultor. “Esse é o futuro para quem depende do mar para garantir seu ganha pão. Dando o incentivo certo, poderemos ter mais produtores”, finaliza.

Demanda para os maricultores

Ciciro Back
Detalhe do molusco e cultivo por meio da aquicultura: projetos de universidades incentivam interessados.

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) também atua com os aquicultores. Por meio do projeto Cultimar, que existe há três anos e já recebeu prêmios nacionais de responsabilidade social, a instituição trabalha para criar um cenário para que a atividade se desenvolva no Estado. A idéia é fazer com que haja uma demanda de consumidores para os maricultores. De acordo com o coordenador-geral do Cultimar e professor de piscicultura e maricultura da UFPR Antônio Ostrensky, o projeto faz um monitoramento quinzenal junto aos produtores de ostras. “A ostra é um molusco que, para se alimentar, precisa filtrar a água que passa por ela, retendo o alimento. Como ela filtra muita água, realizamos análises microbiológicas nesses moluscos para ver se está tudo certo com eles. Se o produto não tiver nenhum problema, emitimos um selo garantindo sua qualidade. Se algo de errado for detectado, corrigimos a situação”, explica. Além das ostras, os restaur,antes também são fiscalizados para ver se as condições de armazenamento e manipulação são adequadas.

Ostrensky revela que constantemente os pesquisadores estão desenvolvendo trabalhos mais avançados para a aquicultura – e lembra que a atividade não se restringe apenas às ostras. “Comercialmente, trabalhamos também com os produtores de camarão para isca viva, qualificando-os e ensinando os melhores métodos de criação. Estamos desenvolvendo técnicas para o siri mole, que é muito apreciado nos Estados Unidos, Europa e Japão. Até o final deste ano esperamos operar esse trabalho”, adianta.

Mais trabalho, mas com melhor previsibilidade

Como forma de incentivar a maricultura, o Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (CPPOM-PUCPR) desenvolve, desde 2005, um programa que visa a oferecer aos produtores “sementes” de ostra nativa para que os produtores desenvolvam a atividade. O coordenador do CPPOM, Fabiano Bendhack, explica que, por enquanto, são poucos os aquicultores que têm nesse ramo a sua principal fonte de renda. Apesar de alguns entraves, o coordenador diz que vale a pena investir nessa atividade. “Os problemas verificados estão na burocracia de se conseguir um licenciamento ambiental e na espera para que a ostra atinja a idade adulta (18 meses). Contudo, o trabalho tem se mostrado rentável. Pode até dar mais trabalho, mas, comparado à pesca, pelo menos os produtores têm uma certa noção do lucro”, afirma. Para que as “sementes” de ostras sejam de qualidade, a pesquisadora do CPPOM, Ana Paula Baldan, explica que há um alto controle no laboratório da instituição.