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Economia

Endividamento do brasileiro cresce

  • Por Agência Globo

São Paulo  – Com o salário achatado e a inflação voltando a mostrar os dentes, o brasileiro tem se endividado cada vez mais para custear as despesas do dia-a-dia. Dados do Banco Central indicam que nos últimos dois anos, período durante o qual a renda média mensal não parou de cair, o volume de crédito no cheque especial aumentou 21,4%. Ou seja: passou de R$ 7,4 bilhões, em janeiro de 2001, para R$ 9 bilhões no início deste ano. O salto chegou a 45,44% nas operações de empréstimo pessoal, cujo total saiu de R$ 17,1 bilhões para R$ 24,9 bilhões.

O endividamento cresceu na mesma medida do encolhimento dos salários e da alta dos preços. Somente na Região Metropolitana de São Paulo o rendimento médio mensal dos “ocupados”, termo usado para designar desde o trabalhador com carteira assinada até quem vive de tarefas esporádicas, despencou 18% desde janeiro de 2001. Calculado pelo Dieese, o valor caiu de R$ 1.066 para R$ 872. A inflação medida pelo IPCA neste mesmo período chegou a 23,8%, puxada principalmente pelos preços das tarifas, como energia elétrica, telefone e combustíveis.

? No Brasil, cheque especial já virou parte do salário. É com ele que o consumidor conta todos os meses para complementar sua renda. O problema é que, no final, é preciso gastar mais para cobrir as mesmas despesas ? afirma o vice-presidente da Anefac, Miguel de Oliveira.

O apetite por crédito foi maior em 2001, com taxas de crescimento de até 36% no empréstimo pessoal. No ano passado, o avanço foi limitado pelas altas taxas de juros e pela prudência dos bancos. Com o objetivo de reduzir o risco da inadimplência, as instituições financeiras apertaram as regras para a concessão de crédito novo. O economista Alberto Borges Matias, da ABM Consulting, explica que o consumidor continuou a se endividar em 2002 (aumentou, por exemplo, o limite do cheque especial), mas não no mesmo nível da inflação. Sem alternativa para recuperar toda a renda engolida pela inflação, a saída foi cortar gastos.

? O resultado disso pode ser conferido em qualquer prateleira de supermercado. As pessoas deixaram de lado os produtos de marca para comprar os de segunda linha, geralmente mais baratos ? diz Matias.

No país com os maiores juros do mundo, parece maluquice pedir dinheiro emprestado no banco. De acordo com o BC, a taxa média no cheque especial chegou a 171% ao ano em janeiro, a maior desde maio de 1999. O peso dos encargos financeiros também foi medido por uma pesquisa da Anefac. De acordo com a entidade, de cada R$ 100 gastos mensalmente pelos brasileiros, R$ 29,83 são usados, em média, para pagar juros do cheque especial, do cartão de crédito ou do crediário da loja. Nenhum outro item engole tamanho pedaço do orçamento doméstico. Das despesas correntes, 24,61% são destinados à habitação (aluguel ou prestação da casa própria e manutenção) e 22,82% à alimentação.

Apesar disso, recorrer a empréstimos pode ser o último recurso para muita gente. No início desta semana, a Associação das Empresas de Recuperação de Crédito (Aserc) concluiu nova pesquisa sobre os motivos que levam o brasileiro a aumentar seu endividamento. Por essa sondagem, 52,8% usam o dinheiro emprestado para quitar dívidas assumidas anteriormente.

Em compensação, o desemprego e a queda de renda foram citados como as principais razões para a inadimplência ? com 55,9% e 12,4% das respostas, respectivamente. A Aserc, que presta serviços para bancos e lojas, entrevistou 161 consumidores.

Diante do aperto do orçamento familiar, o presidente da entidade, Rogério Bonfiglioli, afirma que os credores têm preferido um mau acordo a acordo nenhum. Dependendo do caso, o débito é parcelado em até 12 vezes e o credor aceita também retirar da dívida a parcela do spread, para receber só o principal.

? Pagar em parcelas não é o melhor para o credor, mas é o possível para o devedor ? explica Bonfiglioli.

Cheque especial virou rotina

Quando o orçamento familiar não cobre as despesas da casa e os gastos pessoais, usar o cheque especial para cobrir despesas e o cartão de crédito para compras em geral vira rotina na vida de boa parte dos brasileiros. E o que antes era visto como alternativa quando o salário termina e o bolso aperta se transforma em uma bola de neve.

Foi o que aconteceu com o analista do setor de seguros William Antonio Almeida de Queiroz. Com dificuldades para quitar a fatura do cartão de crédito, no valor de R$ 1.500, ele tentou renegociar o débito com a administradora, sem sucesso.

? Cheguei a pedir um desconto para pagamento total da fatura, porque o valor estava muito alto devido a juros acrescidos de vários meses. Fui informado pelo atendente que não era possivel. Então solicitei o parcelamento e me disseram que poderia pagar em oito vezes, com juros de 10,50% ao mês, o que acho abusivo. Não encontrei outra maneira a não ser rolar a dívida ? diz.

Pressionado pelo aumento de tarifas e preços de diversos produtos que fazem parte da lista de despesas da casa, William acabou entrando também no cheque especial.

? O salário não aumenta, ao contrário das despesas. Agora minhas dívidas não param de crescer e estão se transformando em uma bola de neve ? reclama.

Especialistas em planejamento de orçamento familiar recomendam que os gastos da casa tenham o mesmo tratamento dado ao fluxo de caixa de uma empresa. Receita e despesas devem ser discriminados para que seja possível ter a noção exata de quanto se pode gastar, para evitar dívidas e, principalmente, a influência das taxas de juros sobre elas.

Na conta, entram os custos fixos, como aluguel ou financiamento da casa própria e tarifas de energia, gás, telefone e outras. Assim como despesas com mensalidade escolar. Os custos variáveis, entre eles lazer, remédios e viagens também entram na planilha

Mas se o orçamento foi demasiadamente comprometido, com o uso do cartão de crédito rotativo ou do cheque especial, por conta do aumento das despesas, é hora de renegociar.

Adiar a renegociação das pendências é a solução menos recomendada pelos especialistas em planejamento de finanças pessoais. Quanto mais cedo o assunto for resolvido, há menos incidência das taxas de juros na dívida que já está acumulada. Por isso, nada de fugir dos credores e sim, encará-los de frente.

Outra orientação é nunca tentar cobrir uma despesa com outra. Ou seja, se o cartão de crédito estourou e não há como pagar a fatura de uma só vez, não é recomendável usar o cheque especial para isso.

Aprender a negociar com o credor é fundamental. O ideal é assumir parcelas que estejam dentro das possibilidades financeiras. Evite negociar através de intermediários, como empresas de cobrança. Estas empresas recebem sempre um percentual sobre o valor recebido do devedor e, assim sendo, têm sempre o interesse de cobrar o máximo possível do devedor.

O consumidor tem o direito de solicitar demonstrativo da dívida para averiguar tudo que está sendo cobrado, como juros, mora e multas, o que dificilmente é feito pelas empresas. No parcelamento, vale pleitear juros menores.

Assim que o acordo com o credor for formalizado, o devedor deve se certificar da exclusão de seu nome dos cadastros de restrição ao crédito, como SPC e Serasa

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