O eventual rebaixamento da classificação de risco do País já está incluído em boa medida no preço dos ativos brasileiros, mas pode representar uma pá de cal no mercado de capitais, onde as empresas se financiam. As companhias podem ter de adiar algumas emissões de títulos de renda fixa e ficará ainda mais difícil as vendas de papéis de renda variável previstas para o ano.

Profissionais do mercado financeiro olham essa possibilidade com seriedade. Para Vladimir Caramaschi, estrategista-chefe do Crédit Agricole Brasil, o anúncio da S&P surpreendeu no ‘timing’ e reflete o agravamento do cenário político e o fato de o governo ter reconhecido que não poderá entregar um superávit primário das contas públicas mais robusto. A chance de o Brasil perder o grau de investimento por causa da incapacidade de crescer e combater a deterioração fiscal, diz ele, é maior do que a chance de mantê-lo.

“Vivemos uma situação semelhante ao que se viu no sul da Europa, especialmente na Grécia, onde a necessidade de ajuste muito forte e recessivo aprofunda a desaceleração econômica e afeta negativamente o próprio ajuste.” Para Caramashi, a perda do grau de investimento pode ocorrer ainda este ano e pela própria Standard & Poor’s.

A próxima janela de emissões de ações e de renda fixa que se abre com o fim das férias do Hemisfério Norte e após a divulgação dos resultados referentes ao segundo trimestre começa, portanto, a ficar comprometida. Assim, o ajuste fiscal poderá sofrer mais um golpe, já que as ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) previstas são de empresas que têm como sócia a União e foram colocadas à mesa no contexto do ajuste fiscal.

Entre as companhias estão o ressegurador IRB Brasil Re, a subsidiária da Petrobras BR Distribuidora e a Caixa Seguradora, sendo que a última está prevista para ocorrer no fim do ano. No IRB, por exemplo, a oferta, até aqui, está prevista para o fim de setembro e nela o governo prevê reduzir sua participação na companhia de 27,56% para cerca de 10%, afirmam fontes que têm conhecimento no assunto.

Segundo um gestor de recursos, para conseguir atrair investidores, as emissões terão de ter “um grande potencial ou desconto”. Para ele, muitos ativos estão ainda com preços defasados tendo em vista a conjuntura.

Em renda fixa, a situação é a mesma e a percepção de que o segundo semestre seria mais positivo em termos de captações após a primeira metade do ano vai por água abaixo. Comenta-se no mercado que alguns bancos coordenadores podem levar a certas empresas a sugestão para que desistam, por enquanto, de emissões que estavam sendo estruturadas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.