Informado durante um debate que o Brasil havia perdido o grau de investimento na classificação da Agência Standard & Poor’s, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que “é consequência do que vem sendo feito progressivamente” no País. Pouco antes, o ex-presidente havia mencionado, sem citar nomes, que países vizinhos pararam no tempo. “Esse é um risco real do Brasil”, afirmou. Fernando Henrique considerou o rebaixamento uma “notícia ruim”.

Para o ex-presidente, não há ambiente para aumento de impostos, porque o governo perdeu a credibilidade e não dá sinais de que vá cortar gastos e empregar de maneira adequada eventuais recursos vindos de novos tributos. “Já temos remédio amargo, essa angústia que estamos vivendo é um remédio amargo”, afirmou, repetindo expressão usada pela presidente Dilma Rousseff (PT).

“Ninguém gosta de imposto. Se o Estado desse indicações mais claras de que terá atitudes restritivas de seus próprios gastos, poderia levar a questão adiante. Mas se aqueles que têm mais (dinheiro) sentirem que (o governo) vai usar o dinheiro para contratar mais gente, não vai funcionar. Tem que ter credibilidade.”

O ex-presidente afirmou que não estimula a participação de parlamentares do PSDB no movimento que será lançado nesta quinta-feira, 10, em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). O movimento suprapartidário pretende recolher assinaturas para uma petição a ser enviada à Câmara dos Deputados pela saída da presidente.

“Não estimulo porque impeachment pode acontecer, mas por alguma coisa de forma que não precise ser estimulado, por alguma coisa que seja visível e que se perceba que não dá (para continuar o governo). Por enquanto, isso não aconteceu”, afirmou, após debate de lançamento de seu último livro, “A Miséria da Política – Crônicas do lulopetismo e outros escritos”.

Fernando Henrique lembrou que inicialmente resistiu à ideia de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. “Eu e outros tínhamos medo da desorganização institucional, até que veio a declaração do irmão dele, que era indiscutível. Não adianta estimular. Ou aconteceu ou não aconteceu.”

O ex-presidente reiterou, no entanto, que um governo, para se manter, precisa inspirar confiança na população e ter credibilidade. Questionado se a presidente ainda tem condições de continuar governando, respondeu: “Se não tivesse, tinha caído. Está num processo difícil, debatendo para ver se consegue sobreviver”.

Fernando Henrique arrancou risos da plateia quando mencionou o ex-ministro José Dirceu, preso na Operação Lava Jato, quando cumpria prisão domiciliar pelo mensalão. “Que Deus o tenha”, brincou o ex-presidente.