São Paulo  – O dólar comercial andou na contramão dos demais mercados e, a despeito do otimismo dominante, fechou em alta. A moeda americana subiu 0,86% no mercado à vista, cotada a R$ 2,912 na compra e R$ 2,915 na venda. A pressão foi exercida principalmente pelo mercado futuro, onde o dólar para liquidação em outubro fechou a R$ 2,94, com valorização de 0,78%. O risco-país chegou a cair de forma significativa, mas voltou a subir no final da tarde, marcando 667 pontos-base (-0,30%).

Segundo profissionais do mercado, a alta do dólar foi um caso isolado, já que os cenários interno e externo dão sinais positivos. A pressão foi atribuída principalmente a operações de ??hedge?? (proteção) de empresas que estão captando recursos no exterior. A Ambev teria sido responsável por boa parte da pressão de ontem, antecipando o “hedge?? de uma captação de US$ 500 milhões. O dinheiro captado deve ingressar no país apenas na semana que vem. Petrobras, também captando recursos, é outra empresa que pode ter ajudado a puxar o dólar.

A principal notícia do dia foi a captação de US$ 750 milhões fechadas pelo governo brasileiro, por meio da emissão de bônus globais com vencimento em 2011. O mercado especulava fortemente com a operação ontem, mas a confirmação veio somente ontem. Com essa emissão, o Tesouro Nacional atinge a meta de captar US$ 3 bilhões em 2003.

O Banco Central (BC), por sua vez, concluiu a rolagem de uma dívida pública de US$ 1,48 bilhão que vence no dia 17. Com o segundo leilão de contratos de swap cambial, o BC renegociou 42,7% da dívida vincenda, percentual que ficou acima do previsto pelo mercado até ontem. Na prática, com a rolagem parcial o BC diminuiu a oferta de “hedge?? ao mercado, liberando o correspondente em reais a mais de US$ 800 milhões. Teoricamente, parte desse dinheiro poderia migrar para o dólar, pressionando a cotação. Não é o que deve acontecer, já que o fluxo cambial continua positivo.

Risco-Brasil em seu menor nível

O risco-Brasil atingiu ontem o menor nível em três anos e meio, marcando 667 pontos, uma queda de 0,30%. O indicador funciona como um termômetro do humor dos investidores estrangeiros em relação à capacidade do país de pagar sua dívida. Atualmente, a dívida externa brasileira soma quase US$ 220 bilhões. Na prática, um risco de 667 pontos significa que o governo tem de pagar juros de 6,67% a mais do que os EUA para conseguir empréstimos no exterior. Quanto menor o risco, mais fácil e barato fica captar dinheiro no mercado internacional.

No ano passado, com a especulação sobre as eleições, o risco Brasil chegou a atingir o recorde de 2.443 pontos em setembro. Ou seja, na prática, o mercado fechou as portas do crédito para o Brasil, pois o risco-país nesse nível significa juros de 24,43% acima dos pagos pelos títulos americanos.

Com o compromisso do governo Lula de manter os princípios da política econômica da era FHC (como o aperto fiscal para pagar juros da dívida, o chamado superávit primário), o risco-Brasil começou a ceder desde o final do ano passado, e as instituições financeiras internacionais voltaram a emprestar para empresas e bancos brasileiros.

Até o governo voltou a captar recursos no exterior. Ontem o Banco Central divulgou que o Citigroup e o Goldman Sachs vão liderar uma nova captação do governo no exterior, com a venda de bônus com vencimento em agosto de 2011.

Não há detalhes ainda sobre a operação, mas a estimativa é de que a emissão fique entre US$ 600 milhões e US$ 750 milhões.

A expectativa de aprovação das reformas tributária e da Previdência no Congresso também contribuiu para uma melhora na avaliação dos investidores estrangeiros sobre o caixa do governo brasileiro.

Os investidores estrangeiros já consideram um alívio para o caixa do governo brasileiro a perspectiva de economizar cerca de R$ 49 bilhões no prazo de 20 anos com as mudanças previstas no projeto aprovado da reforma da Previdência.