Gnv030705.jpgOs efeitos da crise política que estourou na Bolívia há quase um mês e ameaçou o desabastecimento de gás natural no Brasil são sentidos até hoje por oficinas especializadas na conversão de veículos. O temor de que o preço do gás dispare ou, pior, que falte gás natural no País fez com que muitos motoristas, prestes a converter o motor para o GNV (Gás Natural Veicular), repensassem a mudança.

?Nosso movimento caiu para quase um terço. Antes, a média era de 80 carros por mês, agora fazemos um por dia (cerca de 30 por mês)?, revelou Eugênio José Seixas, um dos proprietários da IdealGás, em Curitiba. Segundo Seixas, com a crise na Bolívia – e a iminente falta de gás natural no Brasil – o movimento na oficina deu uma parada e não se recuperou mais. ?Teria que haver esclarecimentos através da mídia, tranqüilizando a população de que não há perigo de falta do GNV?, sugeriu.

Segundo Seixas, outro fator que afetou a conversão para o GNV foi a queda nos preços da gasolina e do álcool em Curitiba nas últimas semanas. ?Por mais que haja uma alta do GNV, o preço nunca pode ser comparado ao do combustível líquido?, disse. Conforme levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o metro cúbico do GNV custava R$ 1,228, em média, em Curitiba na semana passada; o litro do álcool, R$ 1,08 e o litro da gasolina comum, R$ 2,05.

Outro empecilho, segundo Seixas, é a instalação de postos que revendem GNV apenas em Curitiba. ?Santa Catarina, por exemplo, saiu na frente e lá há GNV desde São Bento do Sul. Toda a parte do litoral também é servida, enquanto no Paraná só temos gás em Curitiba?, comentou. Na IdealGás, a conversão custa entre R$ 3,3 mil e R$ 4,3 mil, dependendo o ano do veículo, modelo, tamanho do cilindro e outras variáveis.

Outra oficina que sentiu os efeitos da crise na Bolívia é a Mecânica Beto, no bairro Santa Quitéria. De acordo com o proprietários, Sandro Cruppeizaki, o movimento caiu aproximadamente 40% – passou de 20 veículos por mês para cerca de 12. ?A partir do momento em que começaram a ser veiculadas as notícias sobre o problema na Bolívia, o movimento parou, e não conseguimos mais recuperar?, apontou Cruppeizaki. ?Até passar o susto do povo, o movimento deve continuar baixo?, comentou. Quase 50% do faturamento da Mecânica Beto vem da conversão para gás natural. A conversão, segundo Cruppeizaki, custa entre R$ 3,5 mil e R$ 4,5 mil.

Baixa do álcool

Para o diretor do Sindirepa (Sindicato das Indústrias de Reparação de Veículos no Paraná), Wilson Bill, o que vem prejudicando os negócios não é tanto a crise boliviana, mas a queda de preços da gasolina e especialmente do álcool. ?A questão da Bolívia não preocupa, pois a Bolívia tem que vender gás de qualquer maneira. O que preocupa é baixa da gasolina e do álcool?, revelou.

Segundo Bill, basta os preços dos combustíveis líquidos começarem a cair em Curitiba, para o movimento das oficinas de conversão reduzir em 30% a 35%. ?Nessa época, período de safra da cana-de-açúcar, o preço do álcool baixa ainda mais?, apontou. Em Curitiba, existem 17 oficinas de conversão para o GNV, 17 postos revendedores do combustível e uma frota de quase 16 mil veículos convertidos.

Queda de 50%, segundo IBP

Conforme balanço mensal publicado pelo Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), as conversões de veículos leves para o gás natural veicular caíram quase pela metade em maio, na comparação com abril. Segundo o balanço, foram convertidos 16,2 mil veículos em maio no País, contra cerca de 30 mil registros em abril. O número é pouco maior do que o verificado em maio de 2004: 15,9 mil. Desde o início do ano, o volume de adesões ao combustível vinha batendo recordes todos os meses, segundo o IBP.

Em maio, um fato que pode ter afetado as conversões foi a declaração do secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Nelson Hubner, alertando para o risco de desabastecimento de GNV caso o aumento da procura pelo combustível continuasse nos níveis atuais. Poucos dias depois, estourou a crise política na Bolívia.

Segundo o IBP, há hoje 937,3 mil veículos leves movidos a GNV no Brasil, 46,7% deles no estado do Rio. Em São Paulo, houve 4,5 mil novas conversões em maio, aumentando para 288,3 mil o número de veículos que usam o combustível. (LS)