Aos poucos, a rotina vai voltando ao normal em Curitiba com a flexibilização de diversas atividades com a alteração da bandeira laranja para amarela. O trânsito na capital já está mais movimentado, mas ainda distante da realidade do período anterior à pandemia de coronavírus. Porém, acreditam os especialistas em trânsito, as buzinas e o estresse logo irão pegar carona novamente com os motoristas curitibanos e da região metropolitana que, juntos, somam um frota de 2,6 milhões de veículos, de acordo com o Detran-PR. 

Praticamente 1 milhão de veículos ainda continua nas garagens, já que as aulas presenciais nas escolas e faculdades ainda não retornaram e muita gente segue trabalhando de casa no sistema home office. O impacto deste número pode ser visto nas ruas com menos congestionamento e redução de acidentes. Cenário que para o engenheiro de trânsito Celso Alves Mariano, do Portal do Trânsito e Mobilidade, deve se alterar.

LEIA MAIS – “Mortos por covid-19 em Curitiba agradecem e nos abençoam”, diz Greca em entrevista

Mariano afirma que o trânsito em Curitiba ainda não voltou á normalidade do período pré-pandemia. “Percebe-se que a rotina foi alterada. Muitas pessoas não estão fazendo o mesmo trajeto que faziam antes. Alguns estão escolhendo rotas mais acessíveis e outras seguem em casa”, avalia.

Mesmo assim, ele acredita que os congestionamentos logo estarão novamente na rotina dos curitibanos com as pessoas saindo de casa cada vez mais. “As pessoas estão saindo sem necessidade, pois estão ficando loucas dentro de casa. Muitos estão indo ao shopping só para deixar a residência. Se não houver nenhum agravante na pandemia, a tendência é da volta dos congestionamentos”, avalia.

Segundo dados da Secretária Municipal de Trânsito (Setran), no começo do mês de março, ou seja, pouco antes do início da pandemia, os radares de Curitiba apontaram para o fluxo de 3,7 milhões de veículos em um único dia. Na oportunidade, tudo funcionava e as pessoas transitam sem restrições. Com a chegada da doença, tudo foi paralisado para evitar a propagação do vírus, a população deixou de circular e os carros ficaram parados. No dia 31 de março, quando as medidas de prevenção da covid-19 já estavam valendo, os radares sinalizaram uma queda de praticamente metade do trânsito, passando para 1,6 milhão de veículos.   

Com a necessidade de buscar renda, a população foi voltando gradualmente às suas atividades. Com isso, os veículos começaram a rodar com mais frequência e em abril o fluxo chegou a 2,3 milhões de veículos. Já em junho, quando Curitiba passou a adotar a bandeira laranja, que impediu o funcionamento de atividades como bares, restaurantes e academias, além de restrição de acesso a parques, o trânsito aumentou.

No segundo dia útil da bandeira laranja, em 16 de junho, o trânsito foi de 2,5 milhões de veículos. No dia 4 de agosto, ainda na bandeira laranja, os radares apontaram para 2,8 milhões. Semana passada, quando a bandeira amarela já estava ativa, o impacto não foi muito grande no movimento de veículos nas ruas, quando a Setran registrou 2,6 milhões de veículos em um único dia.

Motoristas desacostumados

Mariano ainda faz um alerta deste aumento gradual do trânsito: muito motoristas se desacostumaram com a rotina de dirigir, o que pode ser um risco. “É preciso qualificar o trânsito e o próprio motorista que está voltando pior na direção. Indicativos mostram que o indivíduo está correndo mais quando tem mais espaço nas ruas e aí está o drama no trânsito”, alerta o especialista em trânsito. 

VIU ESSA? – Curitiba confirma menos de 10 mortes por coronavírus pela 1ª vez em quase um mês

Taxista há 22 anos, Rogério Félix, 40 anos, concorda que os agentes de trânsito precisam estar mais atentos para organizar este retorno dos motoristas. Ele já vem notando diferença nas ruas, com muitas pessoas abandonando o transporte coletivo e usando mais o carro. “Já deu para perceber mudança, com trânsito intenso nos últimos dias com a chuva, especialmente nos horários de pico. As opções de horário alternado do comércio precisam ser mais elaborados e flexíveis. O trânsito está impossível e isso que estamos sem as atividades escolares ainda”, aponta o taxista.  

Acidentes  

O número de acidentes, feridos e mortes no trânsito em Curitiba diminuiu 23% no de janeiro a julho de 2020 em relação ao mesmo períodos de 2019. De acordo com o Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran), foram 2.352 acidentes nos primeiros sete meses de 2020 contra 2.993 no ano passado.

Ainda em relação aos números do trânsito em Curitiba nos sete primeiros meses do anos, o número de feridos foi de 1.842 contra 2.385 em 2019. Já o número de mortes foram 18 óbitos no local do acidente contra 30 em 2019. 

O comandante do BPTran, tenente-coronel Mario Henrique do Carmo, acredita que a redução dos acidentes no trânsito pode impactar em uma maior consciência dos cidadãos para valorizarem a vida. “Toda a situação que envolve a pandemia toca as pessoas sobre a valorização da vida e acreditamos que isso possa também refletir nos números de acidentes de trânsito quando voltarmos à normalidade”, disse o tenente-coronel.  

Já nas rodovias que cortam a capital e região metropolitana, nos primeiros seis meses do ano foram 2.199 acidentes com 2.043 feridos e 121 mortos, sendo oito somente em uma grande colisão na BR-277, no começo de agosto, quando um engavetamento gigante foi causado pela fumaça de queimada – na oportunidade, um motorista de caminhão sem visibilidade acabou batendo em outro carro e atropelando alguns dos envolvidos em um engavetamento anterior.  

O engenheiro afirma que a conscientização da população de só sair de casa se for realmente necessário poderia não só prevenir o contágio da covid-19, mas também aliviar os hospitais, que estão sobrecarregados com atendimentos de pacientes infectados com coronavírus. “O trânsito poderia contribuir muito, pois as vítimas de acidente custam muito caro e ocupam grande parte nos atendimentos em hospitais”, ressalta.