Antes de Curitiba decretar a bandeira de alerta laranja nesta sexta-feira (27), para conter o contágio do coronavírus (covid-19) que vem batendo recordes de contaminados nas últimas duas semanas, a secretária municipal de Saúde, Márcia Huçulak, fez um alerta aos jovens que se aglomeram nas ruas, bares e baladas da capital. “Quantas pessoas esse jovem pode estar matando?”, desabafou a secretária em entrevista coletiva do último dia 23 de novembro. “Se importe com os pais, com os avós, com os filhos, com o seu próximo. Só depende de nós”, disse à Tribuna um empresário de Curitiba que registrou diversos casos de covid-19 na família.

A “puxada de orelha nos jovens” veio após a circulação de imagens pelas redes sociais de várias pessoas com menos de 40 anos aglomeradas nas ruas do Largo da Ordem e do Batel. O comentário rendeu reações pelas redes e levantou preocupação do poder público, principalmente pela provável ligação da “festa da galera” com uma segunda onda de contágio pela doença. Na noite de sábado (28), por exemplo, uma balada no Batel foi fechada após denúncia de aglomeração.

Em acordo com a mensagem da Márcia Huçulak, é opinião de infectologistas que a “segunda onda”, chamada de “repique” é culpa dos jovens, que quebraram o isolamento e levam a covid-19 para casa. É o que analisa o médico infectologista João Bosco Strozzi, consultor da Organização Panamericana de Saúde para a covid-19 (Opas). “Com certeza. Os jovens sentem-se imunes e as aglomerações parece um desafio para eles. Eles transmitem de forma assintomática e nem percebem. Não vão admitir nunca”, aponta Strozzi.

Em acordo com a mensagem da Márcia Huçulak, é opinião de infectologistas que a “segunda onda”, chamada de “repique” é culpa dos jovens, que quebraram o isolamento e levam a covid-19 para casa. É o que analisa o médico infectologista João Bosco Strozzi, consultor da Organização Panamericana de Saúde para a covid-19 (Opas). “Com certeza. Os jovens sentem-se imunes e as aglomerações parece um desafio para eles. Eles transmitem de forma assintomática e nem percebem. Não vão admitir nunca”, aponta Strozzi.

Diagnosticado com covid-19 e cumprindo quarentena com sintomas leves, o empresário de Curitiba Geison de Mattos Leite, 39 anos, conta que fica em alerta quando vê as notícias de jovens se aglomerando e saindo de casa sem máscara e sem cuidados. Mattos já foi dono de bar e diz que já saiu muito para se divertir, mas que agora não é momento para isso. Além dele, na família pegaram coronavírus o pai de 70 anos, a mulher e a irmã mais velha. “A gente sempre tenta respeitar os protocolos, mas, no meu caso, meu pai mora em Itapoá, Santa Catarina, e ele veio para Curitiba fazer uma cirurgia de catarata. Ele acabou pegando covid-19 e ficou aqui em casa, então, automaticamente, passou para mim e para a minha mulher. No caso da minha irmã, ela pegou de outra forma, em um evento para 300 pessoas”, relata.

Em isolamento, Geison de Mattos fica em alerta quando vê as notícias de jovens se aglomerando e saindo de casa sem máscara e sem cuidados. Foto: Arquivo Pessoal.

Para ele, a situação atual na capital se tornou um desastre total. “Eu conheço gente que diz que não vai pegar. Se pegar será assintomático. O problema é que, se a pessoa não liga para ela, que se importe com os pais, com os avós, com os filhos, com o seu próximo. Porque a pessoa, realmente, pode ser assintomática e pode não pegar, mas os outros podem pegar e podem morrer”, alerta. O pai do empresário chegou a ser internado, teve 25% do pulmão comprometido e se recuperou. “Já voltou para a casa dele, na praia”.

Mas foi um caso da morte do pai de um amigo por coronavírus que o fez refletir sobre o período da pandemia e a necessidade de mudança de comportamento da população. “Isso mexeu comigo. A galera acha que é politicagem, mas não é. Um pouco, lá no começo da pandemia, eu achava exagerado tanta preocupação. Mas não é, o vírus é uma realidade. Antes de dar o sintoma, eu levei meu pai para o hospital umas cinco vezes. O hospital está socado. E eu levei em mais de um hospital, eu levei em uns três diferentes. Todos eles cheios”. Mattos contou que viu outros pacientes sofrendo, entubados. “Uma correria, uma tristeza”. O boletim de sábado, por exemplo, registrou 17 mortes pela doença em 48 horas em Curitiba.

O pai de Geison chegou a ser internado, teve 25% do pulmão comprometido e se recuperou. Foto: Arquivo Pessoal.

Para o empresário, o “grande erro” é a estratégia. “Não adianta você fechar bares e atividades correlatas se os estabelecimentos têm alvará para restaurante e lanchonete. Só vai mascarar o quadro. É isso que a galera se revolta. Às vezes, tem um aniversário, uma data importante. Então, não são só os bares, outros locais e eventos que promovem o contágio. Se tiver mesmo que fazer festa, faça com cautela, respeite. Os protocolos de segurança não são à toa. Como diria o prefeito [Greca] ‘não enfie o pé na jaca. É isso que as pessoas tem que entender. Só depende de nós”, opina.

Festa com a vacina?

João Bosco Strozzi explica que antes das pessoas realmente receberem as doses da vacina, o que ainda não tem prazo no Brasil para começar a ocorrer, o recomendado é não fazer festa, não se aglomerar e procurar manter os protocolos sanitários. O médico diz que tem visto muita comemoração pelos resultados recentes de eficácia e segurança das vacinas de diversos laboratórios. Porém, segundo ele, cada pessoa tem suas particularidades. “Alguns não irão desenvolver os anticorpos suficientes. Então, se houver 10% de pessoas que não irão produzir anticorpos suficientes, a eficácia da vacina é de 90%. Nunca é 100%, porque não há exatidão neste assunto”, ressalta.

Por outro lado, Strozzi alerta que, antes de comemorar, é importante “que se saiba, que vacina boa é vacina aplicada. Enquanto as pessoas não receberem as doses, a comemoração pode levar ao ditado: ‘nadou, nadou e morreu na praia’. Enquanto a vacina não chega é o mesmo que não ter vacina. As medidas de proteção devem se manter e até aumentar, pois já houve abusos”, finaliza.

Alerta laranja contra a covid-19

Mais estabelecimentos do setor de bares, restaurantes e lanchonetes foram fechados na noite de sábado (28) em Curitiba, um deles no Batel, por não cumprirem o decreto municipal de alerta da nova bandeira laranja (n.º 1600/2020), que determina a suspensão de atividades em bares, casas noturnas para evitar aglomerações e a propagação do coronavírus.

As interdições são resultado de ações preventivas da Aifu-covid (Ações de Fiscalização Integradas), que no sábado atuou desde o período da manhã e foi composta por equipes da Polícia Militar (PM), Secretaria de Urbanismo e Guarda Municipal. As equipes estão atuando desde a sexta-feira.