“Eu só clamava a Deus para nos proteger. Eu estava saindo do banho quando a explosão aconteceu. Saí meio sem roupa, alguém me arranjou uma bermuda no meio do caminho. Meu marido estava pós operado, fez um enxerto ósseo. Eu comecei a gritar chamando ele e ele gritava me chamando, e a gente tentando se encontrar no meio daquela bagunça. Além da fumaça, tinha uma espécie de algodão, uma fibra branca voando no ar, por todos os cantos, gesso caindo nas nossas cabeças. Aí a gente conseguiu se achar, saiu do apartamento. Viu que no apartamento ao lado eles batiam na porta. Pediam socorro, desesperados, mesclado com gritos de dor, pediam ‘pelo amor de Deus nos tirem daqui’. E a gente não conseguia abrir. A gente se sentia impotente, queria ajudar e não conseguia”, disse a psicóloga Elide Marta Casaril da Silva, que é vizinha “de parede” do apartamento que explodiu no bairro Água Verde, em Curitiba, na esquina das Ruas Dom Pedro I e Marques do Paraná, na manhã deste sábado (29).

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Elide e o marido viveram momentos de horror e desespero. Quase duas horas depois da explosão, ela ainda tremia e chorava por conta do susto que passou, com as solas dos pés cortadas pelos estilhaços de vidros em que pisou em seu apartamento e na escadaria do prédio, onde as pessoas se aglomeravam desesperadas, empurrando umas às outras para descer logo as escadas, já que as portas dos elevadores estragaram.

Estilhaços dos vidros das janelas e itens de decoração ficaram pelo chão depois da explosão. Foto: Atila Alberti/Tribuna do Paraná.
Estilhaços dos vidros das janelas e itens de decoração ficaram pelo chão depois da explosão. Foto: Atila Alberti/Tribuna do Paraná.

 

Ela diz que no momento em que o apartamento vizinho explodiu, não dava para saber o que tinha exatamente acontecido. “A gente não sabia se era um avião que tinha caído no prédio, se era uma explosão por causa de gás. Tremeu tudo”, disse ela.

A psicóloga e o marido moram em Rondônia e fazia cerca de oito meses que não vinham para o apartamento em Curitiba. Vieram na semana passada para que o esposo dela fizesse a cirurgia e logo voltariam para Rondônia. “Daqui uns dias minhas netinhas viriam para cá, estariam aqui no apartamento conosco”, disse Elide, assustada.

‘Queda de avião’

“Parecia que a explosão era no meu prédio, porque as coisas mais leves que estavam em cima do balcão da cozinha caíram todas no chão, quebraram. E os gritos da mulher do apartamento que explodiu pareciam que eram aqui dentro do meu prédio”, contou o publicitário Nader Assad, 27 anos, que mora num edifício 200 metros distante ao que teve uma explosão, no Água Verde, em Curitiba, na manhã deste sábado.

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Nader teve a nítida impressão que um avião ou um raio tinham caído no prédio, tamanho o estrondo ouvido. Ele conta que logo em seguida, faltou luz em toda a região. Então, ele desceu correndo e viu que o problema era no prédio quase em frente. Já se deparou com a gritaria na rua, gente saindo correndo pela garagem, gente com a roupa ou a pele queimada, e uma criança estendida no asfalto.

“Ela não parecia queimada. Mas tinha sangue saindo dos ouvidos e parecia que não respirava, estava imóvel”, contou o publicitário, referindo-se ao menino de 11 anos que acabou sendo reanimado pelos socorristas do Siate, ali mesmo, e depois levado com a máxima urgência, escoltado pela Polícia Militar, para o Hospital do Trabalhador, onde passou por uma cirurgia no baço.

Vítimas tiveram graves ferimentos. Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.
Vítimas tiveram graves ferimentos, principalmente o menino que foi arremessado do edifício. Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.

Nader também viu as outras três vítimas. Um dos rapazes, diz ele, estava muito queimado e aparentemente sem pele nas pernas. Vendo aquela cena de horror e finalmente e entendendo o que estava acontecendo, o publicitário chamou o Corpo de Bombeiros.

“Ver as vítimas no estado em que estavam foi chocante demais. Eu fico pensando se fosse no meu prédio, onde tem deficiente físico, muita gente idosa. Eu ficaria sem chão”, disse ele, que ficou marcado pelos gritos da moradora do apartamento que explodiu, os quais ele ouviu tanto de seu apartamento.

Tremeu tudo

A moradora do edifício ao lado do apartamento que explodiu – e que pediu para não ter o nome divulgado – conta que estava na lavanderia quando a explosão aconteceu. “Tremeu tudo. Achei que era aqui no prédio. Quando eu olhei na janela, já vi o apartamento do prédio do lado saindo aquela fumaça preta. Aí já olhei para baixo e vi o corpo do menino estendido lá no estacionamento do prédio. Eu fiquei sem rumo, não sabia pra onde ia, se tinha que sair de casa. Comecei a chorar de desespero. Logo uns bombeiros entraram, levaram o menino lá pra fora numa maca improvisada, acho que era uma porta. Olha, foi um dia terrível”, disse a moradora, ainda um pouco trêmula com tudo o que presenciou.

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Hoje não teve café

Quem também se assustou foi a dona de casa Márcia Negrão, 62 anos, que mora numa casa na Rua Marquês do Paraná, quase na esquina do acidente. “Eu estava passando café na cozinha. De repente veio aquele ‘barulhão’, a casa tremeu inteira, as janelas balançaram. Não sei como não quebraram. Na hora eu fiquei meio perdida, não sabia o que fazer. Até que acabei indo lá fora. Já vi um monte de gente pedindo socorro. A gente fica sem ação, sem saber o que fazer. Foi desesperador”, lamentou Márcia.

Vizinhos ficaram apavorados com o acidente. Foto: Colaboração/Gabriela Boni.
Vizinhos ficaram apavorados com o acidente. Foto: Colaboração/Gabriela Boni.

‘Quase pari’

Outra jovem que também viveu momentos de terror foi a jovem Helen Santos. Grávida de quase oito meses, a funcionária de uma pet shop bem em frente ao prédio disse que, com o susto e o pânico, não sabe como não passou mal no meio da correria.

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“Depois da explosão, era uma chuva de vidro que não acabava nunca. Gente em choque, todo mundo correndo. Foi aterrorizante, surreal, um barulho ensurdecedor que nós pensamos que tinha caído um avião. Aí no meio do corre corre, todo mundo pedindo pra apagar as luzes, porque a gente não sabia se vinha mais alguma explosão. De repente a mulher (do apartamento que explodiu) tentava se jogar do prédio, porque o fogo começou a subir. E as pessoas gritando para ela: ‘Pelo amor de Deus não faz isso. Venha pelas escadas, já está todo mundo chamando os Bombeiros.’ Essa mulher estava muito desesperada. A gente ficou com medo realmente dela se jogar, porque era muita fumaça. Os moradores dos apartamentos embaixo estavam todos em pânico, não sabiam como proceder. E a gente não sabia se era só aquele apartamento que estava incendiando, ou se era o prédio todo. Olha, nunca passei por uma situação tão apavorante na vida. Na hora achei que ia parir”, disse Helen, ainda nervosa.

Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.
Apartamentos e um carro sofreram danos. Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná.

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