O vice-presidente da República, José Alencar, por repetidas vezes tem expressado seu apreço para com o presidente Lula. Mas, pelo contrário, não tem nenhum apreço pela política econômica do governo, chancelada por Lula. Consideremos que, embora membro de outro partido, o PL, Alencar é o substituto legal do presidente e com ele foi eleito, como aliado e colaborador, levando consigo toda a sua agremiação partidária. Essa situação soa falsa. Fossem apenas dois amigos de bar, de boliche ou companheiros de clube social, entender-se-ia que se gostassem, mas discordassem. Entretanto, um vice-presidente que critica e ataca a política do presidente, transforma a amizade pessoal em coisa de somenos. O importante é o entendimento, a linguagem comum sobre as formas de governar. E, aí, Alencar e Lula chocam-se de frente, e não é de hoje.

As últimas críticas de Alencar foram mais contundentes e suas previsões sobre o futuro do Brasil sob Lula não são nada alentadoras. O vice-presidente da República qualificou a política fiscal do governo de “irresponsável”, e não apenas equivocada ou com alguns desvios. Acusou o governo de só se interessar pelo mercado financeiro internacional, reclamou dos juros altos e fez coro com situacionistas e oposicionistas que consideram exagerado o superávit primário perseguido e que vem sendo obtido pela equipe econômica do governo. Foi mais adiante, criticando a reforma agrária, que não se faz ou é feita às meias.

Vêm os prognósticos de Alencar e estes são negros. Disse ele que a atual crise social vivida pelo País é “talvez a maior de nossa história” e que poderá transformar-se em crise política. Que a crise social é enorme, talvez a maior de nossa história, não há dúvidas. O País sofre desemprego recorde e os movimentos sociais vão do campo às classes operárias, ao funcionalismo em greve e aos sem-teto. A Igreja Católica, através da CNBB, tem feito severas advertências sobre essa crise, vaticinando até o rompimento do tecido social, com riscos de revolução. José Alencar é mais brando, mas, mesmo assim, enérgico. Fala em crise política como resultante da crise social, o que pode significar a ingovernabilidade ou, no mínimo, um rompimento do seu partido, o PL, com o governo. Não podemos nos esquecer que o presidente do Partido Liberal, deputado Valdemar Costa Neto, chegou a pedir a demissão de Antônio Palocci e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Se as críticas e os ataques que fazem o vice-presidente da República e o presidente do PL saíssem da oposição, seria compreensível e tolerável. Mas, partindo dos principais aliados do governo, devem ser consideradas um aviso de perigo à vista. Pois é nesta hora que o governo toma posições temerárias, que só podem agravar o quadro denunciado por Alencar. Admite a correção da tabela do Imposto de Renda, o que devolveria à sociedade substancial importância, de que o governo indevidamente se apropriou. Mas, ao mesmo tempo, declara que só fará essa correção com mudanças nas alíquotas. Ou seja: devolve aqui, mas tira ali. Os recursos para a reforma agrária foram substancialmente reduzidos. Há invasões no campo e nas cidades. E os programas de geração de empregos ou não saíram do papel ou fracassaram.

Há, como diz o vice-presidente José Alencar, uma severa crise social. E que possa transformar-se em crise política é mais do que previsível.