Apesar das expectativas do governo federal pela queda no preço da carne, reveladas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro em live realizada nesta segunda-feira (9), as etiquetas não devem ser remarcadas para baixo tão cedo nos açougues do país.

Análises de mercado corroboradas pelo governo dão conta de que os preços vêm sendo pressionados pela seca (que anualmente já provoca altas causadas pela falta de pasto e consequente redução na boiada), mas também por um movimento atípico e que pode perdurar: o aumento da demanda por carne in natura pela China.

De acordo com Felippe Reis, zootecnista e analista de mercado da consultoria especializada em agropecuária Scot, 2019 já registra recorde de exportações. Um total de 1,38 milhão de toneladas foi embarcado para outros países entre janeiro e novembro, mais que o volume despachado em todo o ano anterior, de 1,35 milhão de toneladas.

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Cerca de um terço dos embarques tiveram como destino o mercado consumidor chinês, desabastecido em decorrência da peste suína africana, que matou 120 milhões de porcos na China e levou mais de 7,7 milhões de animais ao abate sanitário em toda a Ásia, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Segundo Reis, poucos países têm produção suficiente para atender à demanda chinesa. “O Brasil é um grande produtor de proteína e consegue atender a essa demanda, além do mercado interno”, diz, ainda que isso tenha colaborado para aumentar o preço aqui no Brasil, com a redução da oferta coincidindo com o aumento na procura em razão das festas de fim de ano.

Forte alta, seguida de pequena baixa

A avaliação feita por uma técnica do Ministério da Agricultura durante transmissão ao vivo feita pelo presidente Bolsonaro é de que o pico de preço “veio do trabalho de abertura de mercados e também do pico da entressafra”, explicação que condiz com o cenário atual, de seca somada a exportações em alta. Mas o que a ministra Tereza Cristina disse em seguida, na mesma transmissão, vai na contramão da leitura do mercado.

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A ministra, que acompanhava Bolsonaro na live, destacou ao presidente que “é temporário, o senhor pode garantir à população [que o preço vai diminuir]. Isso foi um período de seca, a entressafra do boi, mas a arroba já baixou para o produtor, agora precisa baixar na gôndola”. O mercado pensa bem diferente: a avaliação é de que os preços não voltam a cair pelos próximos meses e podem, inclusive, oscilar para cima no começo de 2020.

A queda a que Teresa Cristina se refere, segundo o analista da Scot, foi de aproximadamente 5% e ocorreu nos primeiros dias de dezembro. Segundo ele, as vendas ao consumidor caíram em novembro, por causa dos preços mais altos, e com isso os frigoríficos compraram menos no início de dezembro, causando o recuo nos valores pagos ao produtor. Para Reis, no entanto, o movimento, não tem alcance suficiente para ser sentido nas prateleiras.

De acordo com o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), André Braz, “as carnes poderão continuar subindo até lá pelo fim de janeiro, ou início de fevereiro, quando devem apresentar alguma desaceleração”. “Essas deficiências de mercado [chinês] não se mantêm por muito tempo”, disse ele ao jornal “O Estado de São Paulo”, numa referência aos fatores que têm impulsionado a demanda do país asiático pelas carnes brasileiras.

Felippe Reis, da Scot, é menos otimista na avaliação externa. Ele afirma que é difícil indicar quando as compras chinesas devem diminuir, uma vez que a PSA não está controlada e é cedo para dizer se doença terá impactos duradouros no rebanho do continente asiático, que até agora encolheu 28%.

Preços caem, mas não como antes

O Brasil tem sido privilegiado como fornecedor de carne bovina para a China não só por ser o maior produtor global, mas também pelo fato de as disputas comerciais atrapalharem as compras chinesas dos Estados Unidos e de uma seca ter afetado a produção na Austrália. Além disso, a desvalorização do real torna a carne brasileira mais competitiva.

Somado a esse quadro favorável para os envios para fora do país, o aumento sazonal da demanda no Brasil, puxado pelas festas de fim de ano, contribuiu para os preços salgados no mercado interno.

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André Braz, da FGV, identifica um ponto de virada para a inflação das carnes já no início de 2020, no fim desse crescimento do consumo.

“Mesmo que as exportações se mantenham em alta, há um limite para esses aumentos de preços”, afirmou Braz, lembrando que a demanda brasileira está enfraquecida pelo baixo crescimento da atividade econômica. A boa notícia, ainda de acordo com o pesquisador da FGV, é que a queda nos preços – quando ocorrer – deve ser sentida pelo consumidor assim que o cenário mudar no campo. Como as carnes são muito consumidas, costumam ter estoques pouco elevados, que giram rapidamente, e a transmissão entre atacado e varejo é quase imediata.

Isso não quer dizer, entretanto, que os preços voltarão aos patamares de antes da disparada. A própria Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil avaliou, recentemente, que baixas são esperadas, mas não devem alcançar os valores praticados há 60 ou 90 dias.

Histórico de preços

Desde setembro, a carne atingiu o maior preço em 28 anos e subiu quase 50% no atacado, que é o valor pago ao produtor. De acordo com pesquisa da consultoria especializada Scot, o preço praticado atualmente para a arroba do boi, acima dos R$ 200, é recorde – trata-se das cotações mais altas desde 1991.

Segundo dados da FGV, no componente do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) que representa o atacado, a variação do preço médio dos bovinos vivos acelerou de 2,85% em outubro para 15,63% em novembro. O preço médio da carne bovina passou de uma alta de 5,18% em outubro para um salto de 13,73% em novembro. Já no índice que apura a evolução de preços no varejo, as carnes bovinas aceleraram de 1,07% para 8% (maior avanço desde 2010 de acordo com o IBGE).

Com isso, a carne bovina ao consumidor já acumula alta de 13,39% nos 12 meses até novembro. A reboque, a carne suína avança 12,87% e a alta acumulada no frango inteiro é de 6,37% – reflexos do “efeito substituição”.