Em apenas dois dias, a hipótese de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputar um terceiro mandato consecutivo sofreu dois duros golpes e está virtualmente enterrada. O primeiro golpe veio no domingo, quando foi divulgada pesquisa Datafolha indicando que ampla maioria dos brasileiros rejeita a mudança na Constituição para permitir que o atual presidente dispute novo mandato. "A tese do terceiro mandato não era defendida nem pelo Lula nem pelas principais lideranças do PT, mas agora está enterrada. A discussão sai definitivamente da pauta", comentou fonte que integra a base política do governo no Congresso.

A derrota do presidente Hugo Chávez na votação da reforma que poderia instituir reeleições ilimitadas na Venezuela também tende a ajudar a tirar o terceiro mandato brasileiro da pauta das discussões políticas. De um lado, a vitória do "não" a Chávez funcionaria como argumento aos defensores do caráter democrático do regime venezuelano, levando-se em conta que o resultado seja plenamente aceito e a alternância de poder acabe ocorrendo. Por outro lado, o resultado divulgado hoje, que contrariou a pesquisa de boca-de-urna, deve desestimular iniciativas de alteração da ordem institucional, com reflexos no debate político em outros países da América Latina e também no Brasil. "O resultado fortalece o caminho democrático", afirmou o parlamentar.

Embora não fosse patrocinado nem pelo governo nem por líderes de peso no PT, um projeto do deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) permite ao presidente convocar plebiscito sobre diversos temas – uma prerrogativa que hoje cabe apenas ao Congresso. Havia o temor entre lideranças oposicionistas de que este projeto, uma vez aprovado, acabasse sendo usado para convocar um plebiscito para permitir ao presidente disputar um terceiro mandato. Lideranças do PT negam que o projeto tenha este objetivo.

Independentemente da pesquisa e do referendo na Venezuela, a fonte considera que o presidente Lula não iria "embarcar" na tentativa de obter o terceiro mandato consecutivo – possibilidade hoje vetada pela Constituição. "O presidente é um líder de grande sensibilidade política; é muito cauteloso e não entraria nesta aventura", afirmou. Ele observa que, desde os tempos de sindicalista, Lula, mesmo em momentos de maior radicalização, sempre evitou entrar em "bolas divididas" e nunca saiu da trilha do respeito absoluto às instituições.

"Se viesse nova reeleição, o País racharia dramaticamente entre uma maioria de eleitores do presidente e outra ala minoritária, mas numerosa e forte, de apoiadores da oposição", disse o parlamentar, observando que, sobretudo se coincidisse com uma piora mais grave do quadro externo, a turbulência política num terceiro mandato poderia ser fatal para o Brasil em termos gerais. "Com a discussão do terceiro mandato fora de pauta, o País deve se debruçar agora sobre temas mais relevantes, como o crescimento econômico e a distribuição de renda", reforçou a fonte.