A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente mergulhou numa crise após o anúncio, ontem, do desligamento em massa do Conselho Consultivo, do fundador, o empresário Oded Grajew, e dos ex-presidentes da organização Sérgio Mindlin e Hélio Mattar. O motivo são divergências com o presidente do Conselho de Administração e Fiscal, Synésio Batista da Costa, que se arrastam há quase três anos. Três integrantes desse conselho também deixaram a instituição em apoio ao grupo, assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, conselheiro honorário. Em carta dirigida a Costa, FHC pede que seu nome seja retirado da Abrinq.

“A fundação se afastou do foco na questão das crianças e adolescentes para se dedicar a números. E maquiados. Quando você olha de perto, os programas são ocos. E isso é um grande desperdício para o capital humano que a Abrinq construiu com muito esforço ao longo de 20 anos”, diz o presidente do Conselho Consultivo, o psicanalista Jorge Broide, há 15 anos na Abrinq. Dos 28 membros, 5 permanecem na Abrinq.

Os conselheiros acusam Costa de não consultá-los sobre parcerias e gastos no orçamento, que em 2009 somou R$ 11,5 milhões, dos quais 71% doados por empresas privadas. No organograma da fundação, o Conselho Administrativo é responsável por assinar contratos e cheques.

Nos corredores das organizações do terceiro setor, ontem, o comentário era de que a Abrinq se transformara em uma “fábrica de concessão de selos e só isso”, em referência aos programas Prefeito Amigo da Criança e Empresa Amiga da Criança, que estariam flexibilizando seus critérios. O selo surgiu para estimular o cumprimento dos direitos da infância, previstos no Estatuto das Criança e do Adolescente (ECA), e serve como uma espécie de atestado para prefeitos e empresas.

Alvo das críticas, o presidente do Conselho de Administração da Abrinq não quis dar entrevista. Nota divulgada no site da entidade explicou apenas que o Conselho de Administração é deliberativo e, portanto, “compete-lhe fixar a orientação geral e traçar as diretrizes” da entidade, que “passa por maior profissionalização, despersonalização” e busca novas fontes de recursos no Brasil e exterior.