Brasília – Já chamado de primeiro-ministro do governo Lula, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, repetiu, ao longo da semana, uma frase padrão: “Quem fala sobre isso é o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo”. Não é mera demonstração de humildade. Habilidoso, Aldo herda, cada dia mais, as atribuições de Dirceu. Primeiro, a articulação política, e, com ela, a negociação de emendas. Depois, a visibilidade de porta-voz. Na semana passada, assumiu a responsabilidade por cargos.

Sem cargos ou controle sobre emendas, Dirceu ficou sem instrumentos para lutar, por exemplo, pela reeleição dos presidentes da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), e do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Seguindo orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Aldo não trabalhou pela emenda, contrariando João Paulo, Dirceu e Sarney.

“Isso não vai ficar assim”, desabafou Dirceu a interlocutores, entre eles o vice-presidente do Senado, Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO). Até segunda ordem, ficou. Aldo passará pelo seu primeiro grande teste na semana que vem, na votação do salário mínimo. Além da resistência da base e de seu próprio PCdoB, o ministro terá que enfrentar a rejeição de petistas, inconformados com a concentração de poder nas mãos de um estranho, para garantir a vitória do mínimo de R$ 260.

Obstáculos

Ele já teve uma prova dos obstáculos que o esperam na semana passada, quando petistas reagiram mal a uma confissão do ministro ao líder do PFL no Senado, Agripino Maia (RN). Reproduzindo comentário feito tantas vezes pelos integrantes do partido, Aldo disse que os petistas ainda não tinham aprendido a ser governo e admitiu dificuldades por não estar filiado ao PT. Dois dias depois, reunidos na Câmara, os parlamentares da esquerda do PT usaram as declarações como pretexto para se manifestar contra o mínimo de R$ 260.

Walter Pinheiro (BA), por exemplo, reagiu com ironia. Disse que certo está o PCdoB que, com uma pequena bancada de rebeldes, comanda dois ministérios. Vizinho de Aldo no 4.º andar do Planalto, o chefe da Casa Civil tem ainda enorme influência sobre a bancada do PT: “Ele (Dirceu) não perdeu poder, só as atribuições de maior visibilidade. Mas comanda a agenda positiva”, minimiza Nilson Mourão (AC), fiel aliado do ministro.

Surgiram até rumores de que Aldo teria caído no conceito de Lula. No Planalto, não é essa a leitura. Aldo atuou em situações delicadas, como o caso Waldomiro Diniz e a proibição dos bingos. Uma prova de que sua atuação foi aprovada seria o fato de ter assumido a função de porta-voz do governo no também espinhoso escândalo da Máfia do Sangue.