Rio

– A última pesquisa sobre compra de votos no Brasil, feita pela Transparência Brasil há dois anos, revelou que 3% dos eleitores receberam oferta dos candidatos ou cabos eleitorais para vender o voto. São mais de cinco milhões de brasileiros, se projetado este percentual no total de eleitores. Porém, a um mês da eleição, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, que coordena uma rede de cem comitês de denúncias sobre compra de voto, só contabiliza um único caso no país até agora, na campanha eleitoral de 2004, de impugnação de candidato por envolvimento com este tipo de fraude.

Mesmo assim, na sexta-feira, o candidato impugnado conseguiu uma liminar para continuar em campanha. Ao contrário do que se imagina, o comércio de votos no Brasil não prospera apenas nas áreas pobres e de eleitores de baixo grau de instrução. O cientista político Bruno Speck, professor da Unicamp e pesquisador da Transparência Brasil, disse que outra pesquisa da entidade, feita recentemente em Campinas, mostrou que a faixa de eleitores mais jovens (independentemente da classe social e escolaridade) é a mais propensa ao assédio dos mercadores do voto.

“Fatores que imaginávamos fazer a diferença, como a pobreza e o baixo grau de instrução, tiveram um peso minúsculo na intenção dos eleitores”, diz Speck. Sendo assim, tais fatores não explicam a compra de voto. O que pesou mesmo era a região, concentrada principalmente no Norte e Nordeste, e a faixa etária. Para os jovens, provavelmente, o objetivo é extrair da eleição o ganho máximo no curto prazo.

Criada em 2000, desde que entrou em vigor no país a Lei 9.840, que tipifica como crime a compra de votos, a rede de comitês da Comissão de Justiça e Paz (ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB) já registrou 155 cassações de vereadores a senadores, por conta da aplicação do dispositivo. Mas o único caso registrado este ano aconteceu no município maranhense de São José de Ribamar, onde o juiz Márcio Brandão cassou o registro do candidato a prefeito Luiz Fernando Moura da Silva com base na lei 9.840. Ele é acusado de utilizar a máquina pública para beneficiar a sua candidatura.