A cada passo nas investigações sobre o episódio da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo, a situação do ex-ministro Antonio Palocci fica mais complicada. Já se sabe que partiu pessoalmente dele a ordem para que funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF) obtivessem ilegalmente o extrato de sua conta bancária. Outra novidade que agrava a situação do ex-ministro é que não houve ilegalidades apenas com o caseiro: também teriam mexido na conta do empresário piauiense Eurípedes Soares, suposto pai de Nildo.

A série de desvios foi iniciada logo após a publicação pelo jornal O Estado de S. Estado, no dia 14 de março, da entrevista com o caseiro. Nildo desmentiu o ministro, garantindo que ele tinha estado sim na mansão de Brasília onde se reuniam os lobistas da chamada república de Ribeirão Preto para fazer partilha de dinheiro e festas com garotas de programa. A reação dos acusados foi tentar desqualificar o depoimento, alegando que o caseiro tinha sido comprado para fazer a denúncia. No dia 18, a revista Época exibiu um extrato com movimentação considerada suspeita na conta do caseiro.

Mas o que era para ser um trunfo virou um tiro no pé. A descoberta de que o extrato da conta tinha sido acessado ilegalmente produziu uma onda de indignação no País e deu origem a investigações, além de dividir o grupo mais próximo ao ministro, com acusações mútuas.

Em depoimento na Polícia Federal, o então presidente da Caixa, Jorge Mattoso, admitiu ter entregue pessoalmente a Palocci o extrato da conta. Também vieram à tona os nomes de outras pessoas envolvidas no episódio, como o consultor da Caixa Ricardo Schumann; a superintendente Sueli Aparecida Mascarenhas; e o funcionário Jeter Ribeiro de Souza.

O que não se sabia até agora é que no topo dessa lista encontrava-se o próprio Palocci. De acordo com reportagem da revista Veja, no dia 16, quando o depoimento do caseiro foi interrompido na CPI dos Bingos – graças a uma liminar obtida no STF pelo PT -, o ministro da Fazenda convocou o presidente da Caixa para uma reunião no 3.º andar do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete do presidente da República. Segundo a revista, teria dito na ocasião que tinha indícios, obtidos pelo governo, de movimentação suspeita na conta do caseiro.

Cadeia

Mais tarde, Mattoso reuniu-se com Schumann, um de seus assessores mais próximos e que já tinha trabalhado com ele na Prefeitura de São Paulo, na gestão de Marta Suplicy, e lhe determinou que fosse atrás das supostas irregularidades na conta de Francenildo. Como não tinha acesso direto a informações contidas em contas bancárias, Schumman teria repassado a ordem para a superintendente Sueli Mascarenhas; e ela convocou o funcionário Jeter Ribeiro, que finalmente acessou a conta e imprimiu o extrato, que teria cinco folhas.

Na noite do mesmo dia o documento chegou às mãos de Palocci, que teria ficado satisfeito, convencido de que estava prestes a anular o impacto do testemunho do simples caseiro. Quando a operação escandalosa veio à tona, com uma notável reação pública, a primeira tentativa que se fez para livrar o ministro foi convencer Jorge Mattoso a assumir a responsabilidade pelo ato, segundo Veja.

Como o presidente da Caixa não aceitou, surgiu a idéia, segundo a revista, de se oferecer dinheiro, algo em torno de R$ 1 milhão, a qualquer funcionário do escalão inferior da instituição para que assumisse integralmente a responsabilidade pelo ato ilegal. Mas não apareceu ninguém para "matar a bola no peito", conforme se dizia nas reuniões em que se tratou do assunto.

Demissão

Palocci tentou manter-se no cargo de todas as maneiras. Sua situação tornou-se insustentável, porém, quando, na segunda-feira, em depoimento na Polícia Federal, Mattoso admitiu ter dado ordem para acessar a conta corrente de Nildo e que depois foi entregar o extrato, pessoalmente, na casa do ministro. De acordo com as novas revelações, Palocci recebeu-o ao lado de outros dois integrantes do governo: Marcelo Netto, assessor de imprensa do Ministério da Fazenda; e Daniel Goldberg titular da Secretaria de Direito Econômico e subordinado ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

Finalmente, na terça-feira, o presidente Lula admitiu que a situação de seu ministro mais forte e mais prestigiado tinha ficado insustentável e o demitiu. De acordo com as revelações que estão surgindo sobre a operação para desmoralizar o caseiro, vasculharam também a do pai dele.