De fato, o começo da história foi há quase 110 anos, com um menino careca, de orelhas de abano, vestindo um ridículo camisolão que lhe ia até os calcanhares. Era Yellow Kid ou o Garoto Amarelo, audaciosa criação de um jovem chamado Richard Fanton Outcault, estampada, pela primeira vez, no dia 16 de janeiro de 1896 (ou teria sido em 1895?), no suplemento dominical/infantil colorido do New York Sunday World, então dirigido por Joseph Pulitzer, um imigrante de origem húngara, que se tornaria nome do mais importante prêmio jornalístico dos EUA.

Briga de gigantes

Pulitzer dividia o comando do império jornalístico norte-americano, no final do século 19, com outro magnata da imprensa, William Randolph Hearst, que viria a inspirar o Cidadão Kane, de Orson Welles, do New York Journal.

Ambos achavam que a guerra entre os jornais seria decidida aos domingos em favor de quem dominasse primeiro a impressão a cores. Estavam cobertos de razão.

O World, de Pulitzer, largou na frente. Em 5 de abril de 1895 estampou dois desenhos de Richard Outcault, sob o título “At the Circus in Hogan Alley”. Os personagens eram moleques das ruas pobres de Nova York. No meio da turma, logo se destacaria um garotinho careca, cabeçudo e orelhudo, metido num camisolão. A partir de 1896, Outcault assumiu a periodicidade semanal do personagem e introduziu nos desenhos a seqüência e os primeiros balãozinhos das falas, que se tornariam marcas fundamentais das HQs.

Conta o prof. Francisco Araújo, que por certo não foi testemunha ocular da história, mas sabe das coisas (foi ele que transformou as histórias em quadrinhos em matéria acadêmica e o seu primeiro professor, em curso de nível superior, na Universidade de Brasília, no ano de 1970)… Pois conta o Araújo que quando o molequinho surgiu nas páginas do poderoso diário nova-iorquino, o alvoroço foi enorme. A meninada adorou a novidade. Já os “coroas”, nem tanto. A princípio, tentaram aparentar certa indiferença; depois, passaram a considerar as travessuras de Yellow Kid um “mau exemplo” para as crianças. Na verdade, como bem apanhou o jornalista Sérgio Augusto – outro pioneiro na área, por haver sido o primeiro crítico de gibis da imprensa brasileira, também na década de 70 -, a birra dos leitores mais velhos “não era, exatamente, com as peraltices dele, mas com o ambiente em que circulava e com o seu jeito esmolambado”. Não demorou muito, porém, para que os adultos acabassem sendo pilhados apreciando a animada figurinha por sobre os ombros dos filhos.

Estava iniciada a era dos quadrinhos – então “funnies” (de “funny”, engraçado em inglês), já que as situações iniciais eram sempre hilariantes.

Um parêntese

Aqui, necessário se faz um parêntese: por certo estou me referindo à idade dos quadrinhos em termos “modernos” ou industriais, como produção de consumo de massa, já que, como expressão artístico-visual, eles remontam, certamente, aos primórdios da civilização, quando o homem das cavernas resolveu decorar as paredes do seu lar com imagens simples do dia-a-dia, dando forma gráfica a si próprio e aos bisontes, renas e mamutes que o cercavam.

Mesmo antes de Yellow Kid, vários foram os personagens ilustrados espalhados por publicações da época, na Europa e mesmo nos EUA. Entre eles, os célebres Max und Moritz, surgidos na Alemanha, em 1865, por inspiração do artista Wilhelm Busch. Álvaro de Moya cita um professor suíço, que, já em 1827, desenhava figuras no quadro-negro para entreter seus alunos e depois resolveu publicar esses desenhos, nos quais narrava histórias. Aliás, há quem diga que Richard Outcault apenas teria aproveitado a trilha aberta por Ursinhos e Tigrinhos. A afirmação, contudo, é bastante discutível, e a maioria dos pesquisadores prefere creditar ao pai do Garoto Amarelo a façanha de ter inaugurado uma nova forma de comunicação e expressão gráfica.

Plebeu panfletário

Originalmente, o personagem de Outcault não deveria ter sido impresso em amarelo, mas na falta de indicação do autor, os gráficos do World acabaram escolhendo essa cor. O herói também não tinha nome, inicialmente, sendo batizado pelo público, encantado pela camisola do menino, impressa em amarelo.

Mas Yellow Kid exibiu desde logo uma irreverência crítica, desusada na imprensa de então. Para tanto, utilizava-se exatamente de seu camisolão panfletário, onde o autor faria desfilar as primeiras sátiras e as primeiras observações críticas aos usos e costumes da época.

Nesse sentido é também interessante salientar a iniciativa de Richard Outcault: em uma sociedade eminentemente capitalista, ele procurou ambientar a sua criação exatamente nas zonas mais pobres da cidade de Nova York, oferecendo-lhes sempre uma atmosfera de alegria quase irreal. Seus quadros, aliás, eram invariavelmente compostos de gente simples, varredores negros, chineses com seus trajes típicos e longas tranças, menininhas de laços nos cabelos e animais domésticos (cães, gatos, papagaios, etc.).

Sucesso retumbante

Se Richard F. Outcault pretendera apenas testar junto ao público uma nova modalidade de distração humorístico-visual, acabou encontrando o sucesso e um bom resultado financeiro.

Algum tempo depois, ele se transferiu para o Journal, deixando Yellow Kid seguir a sua trajetória no World, pelo pincel de outro artista. Na ausência de legislação a respeito, de copyright e de syndicates, não houve como prendê-lo. Da disputa pelo personagem, no entanto, surgiria a denominação “imprensa amarela” (“marrom”, no Brasil), para designar o jornalismo sensacionalista.

Quer dizer, resumindo com Moacy Cirne, outro importante teórico brasileiro das histórias em quadrinhos, autor de inúmeros livros a respeito do assunto, os gibis nasceram “como conseqüência das relações tecnológicas e sociais que alimentavam o complexo editorial capitalista, amparados numa rivalidade entre grupos jornalísticos (Hearst vs. Pulitzer), dentro de um esquema pré-estabelecido para aumentar a vendagem de jornais, aproveitando os novos meios de reprodução e criando uma lógica própria de consumo” (A Explosão Criativa dos Quadrinhos, Editora Vozes, 1970).

O nascimento dos quadrinhos aconteceria um ano depois do aparecimento, na França, de outro extraordinário invento, que ganharia enorme importância no mundo das artes, diversão e comunicação: o cinematógrafo, dos irmãos Lumière. Mais que uma simples coincidência, um tem tudo a ver com o outro. Para o prof. Francisco Araújo, foi o início da própria “Civilização da Imagem”.

Francisco Araújo: Um mestre dá a matéria

Quando apresentou suas credenciais aos organizadores do 6.º Salão Internacional sobre Histórias em Quadrinhos, em Luca, na Itália, no final de 1970, o professor Francisco Araújo teve uma grande surpresa: soube pelo recepcionista que “lá no Brasil vocês já estão no século XX”. Ele foi o único teórico participante a falar da experiência de um curso regular de nível universitário, patrocinado pela jovem Universidade de Brasília.

Entre os 500 teóricos, desenhistas, argumentistas e professores de oito países, Francisco Araújo, gaúcho então radicado em Brasília, formado em Ciências Clássicas, acabou sendo classificado como uma autêntica avis rara e foi obrigado a explicar, muitas vezes, por que o Brasil estabeleceu como disciplina o estudo histórico, sociológico e estético das histórias em quadrinhos. Uma equipe jornalística do rádio e televisão italianos chegou a afirmar, ao apresentar o jovem brasileiro ao público, que ele era “o primeiro quadrinhólogo universitário do mundo”.

Depois de uma temporada na Universidade de Brasília, Francisco Araújo foi consultor da Editora Abril, em São Paulo, e acabou voltando ao seu Rio Grande do Sul, onde integrou o corpo docente da Universidade do Vale dos Sinos, em São Leopoldo, na Grande Porto Alegre.

Por onde andará agora o bom Araújo? Fica aqui a nossa saudade. CHG