Bille August ganhou duas vezes a Palma de Ouro, por Pelle, o Conquistador e As Melhores Intenções, e empalmou muitos outros prêmios com os quais a maioria dos diretores apenas sonha – Oscar de filme estrangeiro, Globo de Ouro etc. Mesmo com esse currículo super laureado, August não é um diretor pelo qual a crítica tenha muito apreço. Não é considerado um autor, mas um contador de histórias, e o problema é que, para levantar fundos, ele tem assumido compromissos (produções internacionais, elencos multilíngues) que resultam em filmes híbridos.

Quem quer que tenha lido Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier – pseudônimo de Peter Bieri -, sabe da misteriosa sonoridade das palavras escolhidas pelo autor suíço para contar a história do professor que renuncia a suas palestras e embarca numa viagem que muda sua vida. Ele impede uma mulher de saltar de uma ponte em Berna e, por meio dela, descobre o livro de um autor português. Amadeu do Prado, dublê de médico e escritor que resistiu à ditadura de Salazar.

A história se desenvolve em dois tempos e permite a August abordar dois temas que tem sido frequentes em sua carreira – a fascinação pelas palavras e o preso da grande História (com maiúsculas) sobre as pequenas vidas. Raimund Gregorius, o personagem interpretado por Jeremy Irons, é um professor de grego e latim. A língua misteriosa falada pela mulher que ele salva é a mesma da escrita de Amadeu do Prado, o português. Trabalhando com esse personagem fictício, Mercier enriquece seu relato com aforismos e intervenções filosóficas e literárias. Bebe na fonte de Montaigne e Fernando Pessoa, o do Livro do Desassossego.

Tudo isso é muito erudito, e August, numa entrevista por telefone, disse à reportagem que seu esforço foi para não estragar o que é muito bom – o livro de Mercier. Sua narrativa é acadêmica, e não está totalmente à altura da criação literária, mas no seu formato ‘novelão’, Trem Noturno não desperdiça uma história de amor que é linda. Foi o que moveu August, aqui como em A Casa dos Espíritos, que adaptou de Isabel Allende. O drama humano, mais que o engajamento a uma causa, é o que o move. Lá, a ditadura de Pinochet. Aqui, a de Salazar. Em ambos os casos, o amor e a possibilidades de reconstrução da vida, após a tormenta.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.