O trabalho nasceu da urgência – o brasileiro Rafael Grampá terminou os desenhos do livro de HQ The Dark Knight Returns: The Golden Child exatamente no dia 3 de outubro. E, no início de novembro, recebeu os diálogos criados pelo americano Frank Miller. O livro está previsto para sair nos EUA exatamente daqui uma semana, no dia 11 – ainda não há previsão para o Brasil. “Foi grande a emoção ao ler a história criada pelo Frank”, conta Grampá. “Nosso álbum é um rocknroll com algo novo. Traz elementos do primeiro Dark Knight, mas com mais frescor, especialmente pela influência desse momento conturbado em que vive o mundo hoje.”

De fato, a dupla encerrou o trabalho o mais tarde possível afim de captar com mais vigor a pulsação do planeta. O discurso de figuras como a jovem ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que denuncia a ineficiência dos países no combate contra o aquecimento global, por exemplo, foi decisivo. “Nossa história traz um forte conteúdo político e conversa com esse acordar de pessoas que se destacam”, explica Grampá.

The Golden Child marca o retorno de Frank Miller ao fascinante universo do Cavaleiro das Trevas, cuja fase atual teve início em 1986, quando os fãs de quadrinhos do mundo inteiro se surpreenderam com um novo olhar para Batman. Aos 55 anos, o Homem Morcego interrompeu a aposentadoria para combater o crime, despertando a oposição da força policial de Gotham City e também do governo dos Estados Unidos. A história revelou Carrie Kelley como o novo Robin e culminou com um confronto contra o Superman.

O Cavaleiro das Trevas representou um divisor de águas no mundo dos quadrinhos ao lado de Watchmen, de Alan Moore (HQ publicada no mesmo ano) e Maus, de Art Spiegelman (1988), todas estabelecendo padrões para histórias adultas em um universo que se acreditava essencialmente juvenil. Assim, personagens consagrados foram remodelados, ganhando mais complexidade psicológica.

Miller publicou um segundo volume em 2001, The Dark Knight Strikes Again, que não emocionou a crítica, mas conquistou enorme sucesso comercial – o destaque aqui foi a transformação de Carrie Kelley em Batwoman. Em 2015, foi lançada The Dark Knight III: The Master Race, em nove edições. Aqui, o leitor passa a acompanhar a trajetória de Lara, filha do Superman e da Mulher Maravilha, de quem herdou os principais poderes e qualidades. Ali, Jonathan, irmão caçula de Lara, ainda era um bebê, embora já tivesse relevância por ser o motivo de uma batalha entre as amazonas e os criptonianos de Kandor.

Finalmente, em The Golden Child, o pequeno Jonathan assume também o protagonismo ao revelar um poder até então desconhecido e que será decisivo contra uma força do mal que volta a aterrorizar Gotham City – Lara Kent e Carrie Kelley (que já assumiu totalmente a identidade de Batwoman) descobrem a força do garoto e a utilizam no combate. “Ele tem poderes muito além da nossa compreensão”, conta Miller, em entrevista por e-mail ao jornal O Estado de S. Paulo. “Sobre os irmãos, eu diria que Lara é a mais forte, enquanto Jonathan é o mais sábio.”

Batman

Questionado sobre a emoção de retornar a um personagem tão icônico como Batman, Miller não vacila: “Ele certamente é essencial, pois, juntamente com o Superman e da Mulher Maravilha, eles representam uma tríade de heróis aos quais gosto de voltar. Batman é aquele que assusta os outros, justamente por ser o personagem menos previsível”.

Miller acompanhou e fez poucas sugestões na concepção gráfica dos super-heróis elaborada por Grampá. Sua admiração pelo trabalho do brasileiro, aliás, destrava a língua: “Eu queria trabalhar com Raf tão logo descobri seu trabalho – entre os novos talentos que surgiram, ele é o que mais me empolgou em muito tempo”.

O criador americano diz se sentir lisonjeado principalmente pelos filmes do Batman adaptados da série Cavaleiro das Trevas, o que comprova o vigor da narrativa criada por ele. Finalmente, Frank Miller revelou sua satisfação ao assistir Coringa e descobrir que o personagem carrega traços da forma que ele mostrou em O Cavaleiro das Trevas, ou seja, um homem que se transforma em assassino. “E Joaquin Phoenix foi uma excelente escolha.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.