No limite de suas forças, o velho ator interpreta com dignidade e verossimilhança os dramas do Rei Lear, um dos mais complexos personagens de William Shakespeare. “Sua mente já está embaralhada e ele se confunde, assumindo como suas algumas das falas de Lear, o que torna ainda mais intrigante sua fragilidade”, comenta, com imenso carinho, Tarcísio Meira que, a partir do dia 18, reassume o papel daquele homem, protagonista da peça O Camareiro, que retorna, agora no Teatro Faap.

Em 2015, quando estreou a primeira temporada, Tarcísio ganhou o prêmio Shell pela sua atuação. A honraria o convenceu a retomar o espetáculo, agora como produtor, depois de adquirir os direitos que pertenciam a Kiko Mascarenhas, ator com quem dividia o palco. Aliás, o envolvimento da dupla é essencial para o sucesso da peça.
A trama de O Camareiro se concentra na relação de um veterano ator, identificado apenas como Sir (Tarcísio), com Norman (Cassio Scapin), seu obstinado criado. A peça começa quando a Europa vivia um momento delicado: durante a Segunda Guerra, mesmo com Londres sob ameaça constante de bombardeios, uma companhia de teatro shakespeariano insiste em permanecer em cartaz, encenando uma vez mais a desafiadora peça Rei Lear.

Falta uma hora para as cortinas se abrirem, mas Sir está internado em um hospital, à beira de um colapso nervoso. Parte da trupe defende o cancelamento da apresentação, mas Norman segue determinado a manter a encenação, crente que o veterano ator chegará em tempo. “Sua vida está fugindo e Sir tem consciência disso”, comenta Tarcísio, que completa 84 anos no sábado, 5, idade que o torna mais íntimo dos problemas do personagem. “É lindo vê-lo enfrentar as dificuldades e confesso que sinto muita pena de ele se esquecer dos textos.”

O título de Sir caberia bem a Tarcísio Meira – um dos maiores galãs de sua geração, marcou época especialmente na televisão, moldando o perfil do mocinho de folhetim ao somar mais de 50 papéis entre telenovelas, minisséries e seriados, desde 2-5499 Ocupado (1963), na Excelsior, a primeira novela diária da televisão brasileira, até a recente participação em Orgulho e Paixão (2018). Ele não pisava no palco desde 1996, quando encenou E Continua… Tudo Bem ao lado de Glória Menezes, sua mulher desde 1962.

“Mesmo assim, não aprendi a não ficar nervoso, nem a perder o fôlego”, brinca ele, cujo sorriso tornou-se um símbolo da TV.

“Tarcísio é um eterno curioso, pesquisador. Agora que conhece bem o papel, faz algumas experiências a fim de se renovar”, comenta Ulysses Cruz, que assina a direção de O Camareiro. “É muito interessante acompanhar como ele constrói o papel, buscando diferentes posturas, distintas inflexões de voz.”

Escrita em 1980 pelo britânico Ronald Harwood, a peça pede, de fato, um intérprete solene – na versão para o cinema, por exemplo, dirigida por Peter Yates em 1983, Sir foi vivido por Albert Finney e, no telefilme exibido pela BBC em 2004, o papel foi defendido por Anthony Hopkins. “Há um cavalheirismo natural nesse personagem, capaz de dar um colorido a frases irônicas como a dita por Sir, quando contrariado pelos ataques alemães”, lembra Cruz, recitando, em seguida, a fala: “O senhor Hitler está dificultando muito as companhias shakespearianas”.

A chegada de Cassio Scapin mudou o tom da montagem, percebe o diretor. “Apesar de grande comediante, Kiko Mascarenhas era mais dramático como camareiro, enquanto Cassio transformou Norman em um homem mais bem-humorado. Com isso, mudou também a forma de relacionamento entre o criado e o patrão, creio que ficou mais apaixonado.”

O drama de Sir, aliás, ganhou novos contornos quando, no momento atual, a arte vive sob suspeita. Quando o ator foge do hospital e volta para o teatro, a situação torna-se crítica. Bombas caem nas redondezas, sirenes de prevenção a ataques aéreos berram angustiadas e Sir, mais confuso que nunca, duvida, pela primeira vez, se deve entrar em cena. Norman, no entanto, passa a persuadi-lo de que a arte deve se sobressair, independentemente das intempéries. “É um exemplo de resistência”, diz Tarcísio.

“Norman é fascinante porque é um artista que encontrou seu lugar no teatro”, comenta Scapin. “E não é o de atuar, mas o de servir. E, nessa função, ele exerce o pequeno poder, revelando seu lado humano.”

O CAMAREIRO
TEATRO FAAP
RUA ALAGOAS, 903.
TELEFONE: 3662-7232. 6ª E SÁB., 21H. DOM., 18H. R$ 100 / R$ 120. ATÉ 15/12
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.