São muitos os elementos a aproximar “Jupyra”, de Francisco Braga, e “Cavalleria Rusticana”, de Pietro Mascagni – e a justificar que as duas óperas sejam apresentadas em uma mesma noite, como na atual temporada do Teatro Municipal de São Paulo. Ambas têm enredos, bastante parecidos na forma, sobre a força destrutiva do amor; pertencem ao final do século 19 e, assim, ao auge do período verista; e, mesmo em questões estruturais, a obra de Mascagni influencia diretamente a de Braga.

Mas ver as duas óperas em conjunto sobre o mesmo palco também serve para mostrar o que elas têm de diferente. Em Braga, o flerte, ainda que discreto, com a música de Richard Wagner e Jules Massenet sugere em algumas passagens uma atmosfera quase onírica que, em Mascagni, a crueza de texto e música jamais permite aflorar.

É nesse sentido que podem ser entendidas as escolhas do diretor cênico Pier Francesco Maestrini. Se, na “Cavalleria”, vemos a tentativa de recriação fiel da paisagem siciliana – ainda que o diretor atualize a trama para um reduto da máfia nos anos 1950 -, na “Jupyra” o ambiente de floresta convive com flores estilizadas que rompem brutalmente com qualquer noção de naturalismo, assim como o recurso de fazer com que a vegetação rasteira se movimente na cena final da ópera. Essa tentativa de mostrar o que o real também se faz de sonho – e de fantasia, seja lá em que direção ela possa nos levar – acaba por ser o ponto alto de uma direção que, no trabalho de movimentação cênica e orientação individual dos cantores, não traz muitas novidades e, em certos momentos, principalmente na “Cavalleria”, ultrapassa os limites do verismo em direção à caricatura.

Em “Jupyra”, o duo formado pelo tenor Fernando Portari e a soprano Marina Considera – à vontade tanto na complexa escrita vocal como na concepção cênica de seus personagens – foi o destaque. Já a soprano italiana Elena Lo Forte sofreu com a tessitura do papel-título, praticamente inaudível em passagens fundamentais, como o dueto com Carlito ou o trio em que Rosália se junta a eles.

Foi apenas na “Cavalleria”, na qual viveu o papel de Santuzza, que a interpretação feita de nuances deu amostra real das possibilidades da soprano. O mesmo vale para o Alfio de Angelo Veccia; e, de certa forma, para o desempenho da Orquestra Sinfônica Municipal sob regência do maestro Victor Hugo Toro. Mas quem roubou a cena na récita de quinta-feira, desde a Siciliana com que a obra se abre até a ária final de Turiddu, foi o tenor Richard Bauer.

JUPYRA E CAVALLERIA RUSTICANA – Teatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3397-0397). 3ª, 4ª e sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 40/R$ 100.