Tom Cruise, decididamente, não tem o physique du rôle. Nos livros de Lee Child, Jack Reacher é descrito como um gigante de 1,90 m e 113 quilos. Mas depois de dois filmes – O Último Tiro e Sem Retorno -, não há como negar que ele se adapta muito bem. Possui o temperamento. Você vai ler/ouvir que o filme é ruim, mais do mesmo.

Ignore. Edward Zwick fez um dos grandes filmes de Hollywood nos anos 2000, com a melhor interpretação de Leonardo DiCaprio, mas Diamante de Sangue não obteve 10% dos elogios para qualquer porcaria de Martin Scorsese com o astro. O Último Samurai, sua parceria anterior com Cruise, também teve recepção minguada. Zwick é melhor que seus críticos.

Nas tramas de Child, Reacher abandonou o Exército, mas não há jeito de o Exército abandoná-lo. Aqui, uma major com quem ele está em contato, descobre não a típica conspiração, mas um caso de corrupção nas altas esferas. Vai presa, acusada de espionagem e seria despachada, se não fosse a intervenção de Reacher na prisão em que está. Logo, estão os dois fugitivos e ainda não é tudo. Há uma subtrama que coloca o herói sob suspeita de paternidade – de uma adolescente rebelde.

Ação, portanto, muita ação que, com Reacher, se resolve sempre na porrada. O filme, aliás, começa diferente do livro – editado no Brasil pela Bertrand Brasil -, mas em ambos o público descobre logo que ele não é fácil (para não dizer impossível) de derrubar. Mas há algo mais que pancadaria no cinema de Zwick. Há sempre um conflito de autoridade, e mais – um questionamento da instituição. Num certo sentido, Sem Retorno lembra Coragem Sob Fogo, de 1996, em que Denzel Washington investiga a conduta da oficial Meg Ryan, morta em combate, para saber se ela merece, postumamente, a medalha de honra do Congresso. Há outra investigação agora. De novo, a mulher no universo masculino. As mulheres – há um brutamontes que ameaça detonar a suposta filha de Reacher. Mexe, como Reacher adverte o tira na cena inicial, com o homem errado. Reacher tem algo de Yojimbo, o samurai andarilho de Akira Kurosawa. Vai pelo mundo contestando a ordem, mas não pelo gosto da desordem. Tem um código de honra pessoal. O último samurai – 2?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.