A princípio pensei que fosse por causa do tremendo calor que tem feito, aquela medonha fedentina. Cheiro de esgoto no ar das ruas desta cidade de primeiro hi-hi mundo. Achei que o calor estivesse pondo em ebulição o recheio dos esgotos.

É sempre triste, muito triste, o indestino final da produção dos alimentos, indestinados ao sustento do ser hu-hu-humano.

Demasiadamente breve, após cada Sinfonia das Safras, todo aquele pesado e infindo trabalho, com os seus frutos, são obrigados, ignobilmente, a esgueirar-se desprezados e escondidos, sob os pés e pisadas daqueles a quem alimentaram…

E lá se vai, pelos esgotos mal-cheirosos, mas muito fedidos, por baixo das ruas, onde andam e pisam os orgulhosos hu-hu-humanos, aquilo que ontem ainda foi gostosa comida. Cheguei também a pensar que aquele ataque à gás fosse uma vingança dos ex-alimentos. Mágoa e revolta acumuladas por longo tempo e longos esgotos; pelo deprimente indestino a eles imposto pela natureza das coisas e pelas gentes. Mas então, elevando meu olhar para o alto, vi e comecei a compreender que aquele tão humano, e ao mesmo tempo também tão desumano fedor, nem procedia do metrô do esterco…

Lá estavam, erguidos em diversos e estratégicos locais, espalhados pela cidade, uns enormes cartazes de propaganda. Eram fotopropagandas de uma nova e determinada marca de papel higiênico (?!).Algo assim como o hoje tão popularizado sistema "flex" nos motores dos automóveis, pois "suave de um lado e suave do outro lado também".

Mas que monstruosa porca propaganda!

Começaram com aquela que mostrava uma bela moça que, reclinada languidamente, tinha dois rolos de papel hi-hi-higiênico no regaço. Ainda a menos pior. Romantismo hi-hi-higiênico. Mas então a coisa desandou num andaço intestinal. As fotos seguintes (sempre em preto e branco; como se vê, bem clássicas!), mostram um jovem casal, nu, e em inequívocas posses anti-higienicamente sensuais. São quatro versões, num crescendo escatológico obsceno. A última do casal é um dueto emaranhado, um misto de yoga e kaga-sutra, que é melhor não descrever nem ver.

É bem verdade que a nação, nesta época, mergulhou no seu frenético estado de graça carnal-valesca. Até hoje não sei se no Brasil tem uma quarta- feira de cinzas por ano e todo o resto é carnaval, ou se na realidade conjuntural é o contrário.

Além do mais é também novamente tempo de êxtase ante mais um Pig Brother & Put Sister.

Todavia, para o desespero de alguns, ainda nem todos estão perdidos. E mesmo em minoria, tem estes, ainda por ora, o direito de serem respeitados em seu "antiquarismo". Propaganda pervertida. À quais doentios interessa? E por que tantas firmas, muitas delas de longos tempos e honrados nomes, escorregam para essa fossa da propaganda chula? É desespero comercial ou depravação mesmo? Estarão com a sua criatividade exaurida e no reto final? Por que, onde a boa imaginação falha, a lubricidade e a pura porcaria tomam o seu lugar. Será que não existe no terreno da publicidade algo assim como regras de limpeza, ou bom senso? Não há um conselho de ética? Propagandas sem vergonha na cara, produtores e produtos idem, merecem respeito e crédito? Talvez uma vigilância sanitária devesse ocupar-se disso.

Sempre maior, rápida e assustadora, avalanche à prumo, é a derrocada moral humana (ou seria mais exato dizer-se i-moral?)Muitas pestes físicas assolam o mundo.Todavia, infinitamente mais estragos ainda causam aquelas que grassam nos espíritos. As exceções, que por sempre serem exceções, são poucas e minguantes, nunca devem ser contabilizadas lado a lado com a Grande Multidão. Que montanhas de pedras e lodo é preciso pôr de lado para cada diamante que se procura!…

É assustadoramente fácil e rápido como o ser humano pode resvalar à condição de um macaco obsceno. E sempre é esta uma descida sem volta. O cipó que o leva para baixo, não estará ali depois para levá-lo novamente ao alto. Se ainda há alguma lógica e bom senso, todo aquele papel higiênico, anunciado daquela torpe maneira, deveria ser usado para limpar as infelizes imagens que fabricante e propagandista borraram. De um lado e do outro.

Ivahy Detlev Will é da Academia de Letras do Vale do Iguaçu União da Vitória PR.