Em Porto dos Milagres,
de 2001, ela foi Ondina.

Quando recebeu o convite de Gilberto Braga para entrar em Celebridade, Nathália Timberg logo imaginou que fosse se deparar com mais uma típica megera, como tantas que marcaram sua carreira. Só em novelas do próprio autor foram duas: Constância Eugênia, de O Dono do Mundo, e Idalina Silveira, de Força de um Desejo. Mas a sagaz Yolanda Mendes surpreendeu a atriz com suas doses de humor e com o que ela classifica de “ética elástica”. “Ela faz de tudo para sobreviver, mas não é malévola. É incrível como o público gosta dela”, destaca a atriz.

Apesar dos recursos “pouco louváveis” que a falida personagem utiliza para ganhar a vida, Nathália tem certeza de que não está diante de uma vilã – “ela tem falhas de caráter”, minimiza. Mas vai pouco além disso ao avaliar a composição e a personalidade de Yolanda. A atriz confessa que não tem muito interesse em “filosofar” sobre seu trabalho na tevê. “As pessoas gostam de fazer romance em relação a isso. Você vai pela indução do autor e usa sua bagagem de vida para criar a personagem. É só isso”, minimiza, sem esconder uma pontinha de impaciência.

Aos 74 anos de idade, Nathália está completando 50 de carreira. Declaradamente avessa a entrevistas, a atriz também não gosta de comemorar efemérides como esta. Por ela, passaria a data sem alvoroço, trabalhando, como de costume. Atualmente, a atriz se divide entre as gravações de Celebridade e a excursão da peça Melanie Klein, em que interpreta a famosa psicanalista. “Sempre conciliei teatro e tevê. É só saber quais são suas prioridades e se tem condições de agüentar o volume de trabalho”, simplifica, com naturalidade. Graças à insistência de seus produtores, Nathália concordou em celebrar o meio século de trabalho com uma biografia, que vai ser escrita por Tuna Dwek, também atriz. Ao contrário da vaidosa Yolanda, no entanto, Nathália não deve ser a melhor “promotora” de si mesma. “Acho que a Tuna vai ter muito trabalho. Tenho fugido dela. Definitivamente, não sou meu assunto favorito”, dispara a atriz, rendendo-se a uma boa gargalhada.

P – Sua carreira é pontuada por vilãs inesquecíveis. Você gosta de personagens de caráter duvidoso?

R – Gosto de fazer o que é bom, uma personagem boa e bem-escrita. Não importa que seja a vilã ou não. Acho até muito primária esta história de ser vilã ou ser mocinha. E a Yolanda não chega a ser uma vilã. É uma pessoa que tem falhas de caráter, uma mulher de sociedade, em situação de decadência econômica, que tenta se sustentar com a experiência que tem.

P – Como foi o processo de composição da Yolanda?

R – Não existe muito esta diferença de composição de uma personagem para outra. A não ser, é claro, que você tenha uma personagem com características específicas. Mas o mundo da Yolanda é este mundo em que vivemos aqui, tenho contato com ele diariamente. Ela é uma mulher que fala bem, tem uma formação, é viajada. Isso tudo fornece elementos para a construção. Mas ela não me leva para um universo específico. As pessoas gostam muito de fazer romance em relação a isso.

P – Mas, no teatro, certamente seu trabalho de composição é diferente…

R – A abordagem não se altera. O que se altera é o aprofundamento. O trabalho no teatro vai em camadas muito mais profundas que a televisão. Na tevê, o desenvolvimento da personagem é uma obra aberta, caminha junto com o autor. É uma troca muito interessante que se faz: o autor recebe o seu trabalho, devolve de uma forma diferente. É um trabalho desenvolvido em conjunto e à distância. Já no teatro você tem uma proposta de um trabalho que vai se aprofundando em camadas. A personagem evolui para dentro.

P – Você não acha exaustivo conciliar teatro e tevê?

R – Sempre fiz isso, porque sou uma “workaholic”. É claro que há um compromisso e você tem de se organizar de maneira a poder cumpri-lo. Com disciplina e respeito, é possível conciliar. Não posso chegar ao teatro e dizer: “Hoje estou cansada porque gravei”. O que não pode de jeito nenhum é comprometer uma coisa com a outra. Basicamente, você tem de saber qual é o seu pique e quais são suas prioridades: se você vai querer abdicar da vida noturna depois do teatro porque vai gravar cedo no dia seguinte, ou das festas da tevê porque está viajando com a sua peça.

P – Como você avalia as mudanças da profissão na ‘era das celebridades’?

R – Nossa profissão está absolutamente glamourizada. As pessoas que buscam ser atores nem sempre estão preocupadas em saber o que vão expressar. Muitos buscam uma passarela, uma forma de exibição, não têm preocupação alguma além de um retorno que imaginam ser fácil. A gente vê muitos atores mais interessados em levar sua cama para os jornais que em qualquer trabalho. Acho negativa esta vitrine em que o ator está exposto, porque distorce as coisas. O glamour tem pouco a ver com o trabalho e muito com a imagem pública do ator. Quem tem alguma coisa a dizer no seu trabalho não precisa ficar falando da sua vida privada.

P – Mas um marco como 50 anos de carreira é um assunto profissional e interessante…

R – São 50 anos, podiam ser 49, 47, 62… É claro que é um momento de maturidade. Não vou pretender ficar madura aos 100. Mas, para mim, é mais um momento de vida, que não tem marco, não tem dia. Não gosto de “dia para a gente se divertir”, Dia das Mães… Desde criança, eu mandava flores para minha mãe no dia do meu aniversário. Para mim, aquele era o meu Dia das Mães. Era uma coisa pessoal, entre mim e ela. Não uma data marcada pelo comércio, um pretexto para matérias…

P – O que é mais difícil na profissão para você?

R – É justamente lidar com este lado administrativo da carreira. Talvez por isso eu seja tão esquiva a entrevistas. Faço muita questão de preservar o pouco “meu” que tenho: o direito de ficar em casa, fazendo nada, lendo, ouvindo música, de ter minha vida privada. Não tenho nada a esconder, levo uma vida absolutamente simples, mas é minha. Acho que o ator já se dá muito neste tipo de trabalho, porque entra com toda sua sensibilidade, física e mentalmente. Então, tem um pedacinho que deve ser preservado.