Paulo Betti defende
a regionalização na televisão.

Desde que me conheço por ator, ouço falar da regionalização da produção da tevê. Imprescindível e urgente! Uma necessidade básica, como a de ter um Teatro Municipal em cada cidade. Muitas conseguiram o seu, mas a regionalização teima em não sair do papel.

Só agora teremos a votação para que seja regulamentada. O texto integral do projeto pode ser conseguido com a deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) -dep.jandirafeghali@camara.gov.br.  

Por que esse projeto ainda não foi avaliado, apesar da regionalização ser obrigatoriedade constitucional desde 1988? Simples. Porque as quase 300 emissoras, concessões públicas, não estão aparelhadas para cumprir o que a lei deve determinar: 30% da programação ser feita onde a TV estiver localizada, com 5% dedicados à dramaturgia. Uma média de seis horas de programação local e uns 50 minutos de dramaturgia.

Dá até para fazer uma novela em cada região. Imaginem um campeonato brasileiro de novelas! Uma competição entre as emissoras – que hoje apenas reproduzem, na maior parte do tempo, a programação que vem do Rio ou de São Paulo. Nos horários principais, em cadeia nacional, seriam transmitidos os programas de maior sucesso. Duvidam dos talentos regionais? É só olhar a classificação do campeonato brasileiro de futebol! É claro que é necessária uma transição, um tempo para que as emissoras se preparem para a nova organização.

A regionalização tem tudo para dar certo! Cada vez mais as pessoas querem saber o que acontece em sua própria cidade e região. Conhecer melhor seus artistas, cultuar seus usos e costumes. As emissoras sabem disso e, aos poucos, vão aumentando o tempo de seus telejornais locais. Mas esse processo é muito vagaroso. Temos pressa!

Eu sou um exemplo da migração interna. Saí de Sorocaba. Fui para São Paulo. “Eduquei”, consciente e inconscientemente, meu sotaque e hoje estou no Rio. É uma delícia, não nego… Mas, e se quisesse ter permanecido em Sorocaba? Ainda não teria conseguido fazer uma novela! Uma novela da região, por exemplo, teria, entre outros: Lima Duarte, Regina Duarte, Maitê Proença, Heloísa Mafalda, Juca de Oliveira, Claudia Raia, Edson Celulari, Rogério Cardoso, Umberto Magnani, José de Abreu, Ítalo Rossi e muitos outros artistas como eles -que são excelentes, mas preferiram ficar em suas cidades.

Pela televisão, nós recebemos mais de 90% de nossa informação, cultural ou não. É um veículo poderoso e maravilhoso! As cidades do Rio e de São Paulo, que são, praticamente, os únicos centros de produção e emissão do país, têm de ser generosas e magnânimas. Aceitar essa “reforma agrária” inevitável! Vai ser bom para todos nós. E para nossos sotaques! E para nossa auto-estima! E para a economia regional. Mais produção, mais variedade, mais competição!

O presidente do PT, José Dirceu, disse, no programa Roda Viva, da TV Cultura, que o partido é fruto da Cultura Popular, do Teatro de Arena, do Teatro Oficina, do Cinema Novo e da Tropicália. A cultura desse novo governo deve ser tratada como coisa séria! O Ministério da Cultura deve atuar em sintonia absoluta com os Ministérios todos, principalmente com os da Comunicação e Educação.

Vocês já notaram o sotaque do Zé Dirceu? Se fosse ator, já o teriam “educado”. Entendam que não quero que o Zé Dirceu se “eduque”. Porque, nessa educação, alguma coisa muito importante se perde… Quero que a TV brasileira fale uma linguagem múltipla!