No palco e na direção, Selton
Mello: “Zastrozzi é sinistro”.

Lutas de esgrima, misticismo, crimes em série e um vilão irresistível. Todos os ingredientes de um melodrama estão em Zastrozzi, texto do premiado autor canadense George Walker, que tem estréia nacional amanhã em Curitiba. No elenco, Selton Mello, que se aventura na direção, com respaldo de Daniel Herz.

Walker, inédito no Brasil, faz uma paródia do estilo melodrama para contar a história do mais terrível de todos os vilões. A peça retrata os momentos finais da perseguição que o personagem Zastrozzi impõe a Verezzi, um artista sonhador, para se vingar do assassinato de sua mãe. Com essa história, a peça propõe uma reflexão sobre a visão maniqueísta da luta do bem x mal e do mal x bem. O canadense Walker trabalhava como taxista até 1972, quando soube que o Factory Theatre estava procurando novos autores. Foi para eles que vendeu a primeira peça e, desde então, se tornou uma das estrelas do grupo. Suas peças somam mais de cem montagens na língua inglesa e em várias traduções para o alemão, francês e turco que o tornaram conhecido em todo o mundo, mas ainda inédito no Brasil.

Selton Mello e o diretor Daniel Herz descobriram o texto de Walker há dez anos e, desde então, montar Zastrozzi se tornou uma obsessão na vida dos dois. “Quando montei O Zelador, que foi minha primeira produção, cheguei a pensar em Zastrozzi primeiro, mas por algum motivo acabou não acontecendo”, lembra Selton. A peça de Walker voltou à cena por causa de Ângelo Paes Leme, que leu o texto no ano passado, incentivou os amigos a retomar o projeto. Ângelo assumiu o personagem que seria de Daniel, e Selton resolveu que estava na hora de enfrentar o desafio de dirigir um espetáculo. A estréia acabou sendo em Curitiba devido a um dos patrocinadores, Brasil Telecom, que assumiu a Telepar.

Como não se sentia preparado para dirigir sozinho, Selton e Daniel acharam que seria uma boa idéia assinarem juntos a direção. “O mais interessante disso é que você se abre para novas experiências e novos encontros. A decisão de trabalhar em grupo é uma opção pelo exercício da flexibilidade. O exercício da renúncia, de negociação, da generosidade. Você sabe que vai ter que ceder em algum momento, ficar mais na sombra, e em outras horas vai poder avançar. Eu acredito que isso é um exercício de vida fascinante. Você se abre para o novo”, garante Daniel, que está indicado para o Prêmio Shell deste ano pela direção de As Artimanhas de Scapino.

Apesar do autor ser canadense, Zastrozzi é um personagem que lembra o cotidiano das elites brasileiras, já que a ética não é uma de suas qualidades. “Todos nós temos um pouco de Zastrozzi, no sentido de fazer pequenas falcatruas, pequenos subornos, e de como temos desenvolvido um pouco o sistema de se corromper e corromper o outro. Nesse sentido, o Zastrozzi pode estar sentado na platéia”, atiça Daniel Herz, fazendo questão de destacar a atualidade do texto, num momento em que muito se discute a existência de um eixo do bem e de um eixo do mal. “A peça deixa no ar a impressão de que esses dois eixos não são tão discriminados assim. São como se fossem duas coisas tortas que se enroscam”, acrescenta Selton.

Por sua arquitetura teatral sofisticada e diálogos matemáticos, o texto de Walker é um presente para os seis atores do elenco: Selton Mello, Ângelo Paes Leme, Natália Lage, Michel Bercovitch, Álvaro Diniz e Gisele Câmara. George Walker valoriza o jogo teatral de tal forma que a simplicidade passa a ser a peça mais importante da montagem, privilegiando o trabalho dos atores. O preparador corporal Dani Hu é responsável por uma certa orientalização da peça. O talento e vitalidade do diretor de arte Eduardo Filipe, que trabalha em harmonia com a figurinista Tatiana Rodrigues, a calma e experiência do iluminador Aurélio di Simoni e a trilha musical de Marcelo Vindicatto e Plínio Profeta visam funcionar em sincronia com a essência do texto.

De resto, como diriam os adolescentes, “Zastrozzi é sinistro”. Mas a peça, com duração de uma hora e meia, não é para fanzocas histéricas. Seu texto, observa Selton Mello, é envolto por “um humor negro que incomoda. Um humor corrosivo. É uma peça que bota o público para pensar”.

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Temporada de estréia nacional: amanhã, sábado e domingo, às 20h30, no Teatro HSBC/Palácio Avenida. Telefones 232-7177 e 321-6525. Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (estudantes). Patrocínio Brasil Telecom e Eletrobrás.