Quando entra em cena pela primeira vez, George Harrison não está em evidência. Encara a câmera protegido por uma parede de tulipas. Uma voz o provoca: “Vá em frente e voe, baby, apenas sinta-se livre.” O tom enigmático prepara o espectador para a limitação da própria natureza da linguagem documental. Mesmo com as quase quatro horas de imagens, o ‘beatle quieto’ poderá até ficar mais próximo, mas não será plenamente compreendido.

Living in the Material World, exibido nesta semana no festival do Rio e lançado em DVD na Europa e nos EUA (ainda sem previsão de ser lançado aqui em DVD, embora já esteja na internet), traz o rigor jornalístico de Martin Scorsese para desvendar o personagem, guitarrista, membro da maior banda de rock.

Harrison, assim como Ringo, nunca desfrutou da idolatria gerada por Paul McCartney e John Lennon. Ao reconstituir seus passos, o cineasta renova o fascínio por alguém que ignorou a posteridade.

“Não me importo se eu não for lembrado”, disse certa vez, conforme relatou Olivia Harrison ao New York Times. Ela foi casada com o britânico entre 1978 e 2001, ano da morte dele. Olivia, também produtora do filme, foi quem procurou Scorsese para assumir a empreitada.

O principal argumento para sensibilizá-lo foi uma afetuosa carta escrita por George para a mãe dele quando tinha um pouco mais de 20 anos. “Ele expressava a ideia de que sabia que a vida não se limitava à riqueza e à fama”, afirmou o diretor também ao NYT.

O foco aqui está nos depoimentos de quem conviveu com o músico como Paul, Yoko Ono, Terry Gilliam, Ringo, Jackie Stewart, Eric Idle e George Martin.

O produtor Phil Spector, por exemplo, descreve o ‘tormento’ de gravar algumas faixas de “All Things Must Pass”, primeiro álbum solo de Harrison pós-Beatles, por conta da obsessão harmônica do guitarrista em suas composições. Eric Clapton fala abertamente do caso em que ele roubou a primeira esposa do amigo, Patti Boyd – a famosa história por trás do hit Layla. Paul admite em um dos trechos de sua entrevista que a relação de trabalho com o companheiro nem sempre foi das mais equilibradas. O filme, aliás, mostra uma destas discussões no estúdio.

Há um vasto material audiovisual, que inclui vídeos caseiros, fotografias, gravações de áudio e cartas. Num dos arquivos exibidos, há um pitoresco prenúncio do fim. “Acordei, fui para Twickenham, pratiquei até a hora do almoço – deixei os Beatles – fui para a casa, e à tarde fiz King of Fuh no estúdio Trident, depois comi umas batatinhas”, escreveu em seu diário em 1969. No ano seguinte, após as conturbadas gravações de Let it Be, a banda encerrou as atividades.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.