Mauro Mendonça: “Meu corpo
já está preparado…”.

Os quase 50 anos de carreira e a infinidade de personagens vividos não diminuem nem um pouco o entusiasmo do ator Mauro Mendonça com a profissão. O intérprete do coronel Justino, de Cabocla, continua tratando seus papéis com a empolgação de um novato e demonstra, através deles, sua grande vontade de trabalhar. Segundo o ator, Justino é uma ótima maneira de dar este “recado”, já que o personagem está sempre em constante atividade física e emocional: anda a cavalo, se apaixona e se casa com uma mulher bem mais jovem… “Quando a gente fica mais velho, existe a ameaça de ficar encostado. Estou vivo, estou aí”, avisa o ator, de 72 anos.

Os últimos dois anos têm sido de intensa atividade para Mauro. Além de quatro trabalhos na tevê, ele participou de três longas-metragens, sendo o último Redentor, de Cláudio Torres, que estreou em setembro. “Meu corpo já está preparado para receber outros corpos”, diverte-se, referindo-se a sua vasta experiência como ator. Agora, Mauro está “curtindo” as alegrias de Justino em Cabocla. Depois de ter expulsado a filha de casa por não concordar com o casamento dela com o peão Tobias, de Malvino Salvador, Justino faz as pazes com ela e ainda vê seu maior inimigo, o coronel Boanerges, vivido por Tony Ramos, perder as eleições municipais para seu filho Neco, papel de Danton Mello.

P – O que mais encanta em seu personagem?

R – É o amor dele pela Pepa. Antes de conhecê-la, o Justino era amargurado e disposto a algumas vilanias. De repente, ele se apaixona por uma mulher e esse sentimento renova sua vida de uma tal maneira que ele enfrenta a resistência da sociedade para se casar com ela. Mas agora o Justino está voltando a ficar durão. Confesso que isso não me agrada muito. Gostei mesmo foi da virada, de ele ter ficado mais legal e compreensivo. Mas eu entendo que é forçar muito a barra um homem como ele mudar totalmente e ficar bonzinho. O interessante disso tudo é que ele não é um personagem linear. Ele dá essas guinadas, o que é muito bom para o ator.

P – Você nasceu em Ubá, Minas Gerais. Essa vivência no interior ajudou na composição do personagem?

R – Na verdade, o que me ajudou mesmo foi o período que vivi no Triângulo Mineiro, entre 1947 e 1950. Ubá era uma região um pouco diferente do que é mostrado na novela. Em Araguari, Tupaciguara e Uberlândia, onde estive nesses três anos, tive mais contato com a caboclada, fui a festas na roça e conheci o pão de queijo, antes mesmo de virar moda em Minas. Foi até imitando o jeito de falar de um irmão meu, que morava por lá, que acabei encontrando o tom do sotaque do Justino.

P – Ao longo da sua carreira, você interpretou diversos personagens com uma boa posição social. A que você acha que se deve isso?

R – Acho que tem a ver com o meu biotipo. Eu até já fiz um mecânico, o Cirineu, em Despedida de Solteiro. Mas confesso que até a minha empregada estranhou e veio falar comigo: “Não gosto de você fazendo papel de pobre. Gosto quando você faz senhor”.

P – Existe algum personagem específico que você ainda tenha vontade de fazer?

R – Não. Eu já fiz muita coisa nesta vida e me sinto feliz com todos esses trabalhos. É verdade que, às vezes, você pega personagens não tão bons, que fazem sofrer. Mas não tem jeito: tem de engolir, digerir e ir em frente. Isso depende muito de quando o anjinho da guarda lá em cima diz: “Tome, meu filho, aproveite e vá brincar!”. Eu gosto de trabalhar. Não tenho um tipo determinado que ainda queira fazer.