Cartola só foi cantar suas músicas aos 65 anos

Foto: Arquivo

 Mestre Cartola jamais será esquecido.

São Paulo (AE) – Para os não iniciados em Cartola (1908-1980), a melhor atitude depois de ver o filme de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda é, se estiver no Espaço Unibanco, atravessar a rua e entrar na loja de CDs na frente. Ali se pode comprar a felicidade por módicos R$ 12. Trata-se do disco de estréia do grande melodista do samba, intitulado simplesmente Cartola, que J.C. Botezeli, o Pelão, produziu e comenta no filme. Aproveite e compre o segundo também, de mesmo título e mesmo preço, em que ele aparece na capa ao lado de Dona Zica (1913-2003) na janela.

Foi uma estréia tardia do compositor cantando suas obras-primas, aos 65 anos, mas ambos os discos (o segundo, produzido por Juarez Barroso) são daquelas jóias eternas. Só no lado A, o primeiro LP trazia Disfarça e chora, Sim, Corra e olhe o céu, Acontece, Tive sim e O sol nascerá. É pouco? Pois o segundo Cartola abre com O mundo é um moinho, inclui Minha, Sala de recepção, As rosas não falam, Ensaboa, Cordas de aço. Todas dele, na maioria sem parceiros. E, para arrematar, traz também registros imbatíveis de Senhora tentação (Silas de Oliveira) e da comovente Preciso me encontrar (Candeia), o que ressalta suas qualidades de intérprete. São 24 sambas para se ouvir de joelhos.

Vergonhosamente, as versões em CD não reproduzem a ficha técnica nem os textos de Sérgio Cabral (no primeiro, de 1974) e Juarez Barroso (no segundo, de 1976) contidos nas contracapas do LP. Bem, o que dizer disso, diante do fato de que nem Marcus Pereira, o dono da gravadora dedicada à MPB de raiz e ?alternativa? na época, acreditou muito no resultado do disco de estréia? Isto é o que Pelão conta, de maneira bem-humorada, no filme.

Se o mercado não vislumbrava a real dimensão de Cartola, seus pares na poesia e na música reconheceram, antes de virar moda, sua importância.

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