Ele não é belo como Brad Pitt ou George Cloonery, mas Ricardo Darín possui um charme viril – o famoso rosto esculpido na pedra de astros míticos de Hollywood, como Clark Gable e John Wayne – que agrada a homens e mulheres.

Desde 2000, quando estourou com Nove Rainhas – e logo em seguida veio O Filho da Noiva -, ele foi o ator que deu uma cara ao novo cinema argentino. Tornou-se internacionalmente conhecido. Agora mesmo, está em cartaz nos cinemas brasileiros com o mais explosivo episódio de Relatos Selvagens, de Damián Szifron. E ganha na noite desta sexta-feira, 21, a homenagem do Belas Artes, que programou um Noitão Ricardo Darín.

O conjunto de salas reserva três delas para a programação dedicada a Darín. Cada salas vai exibir três filmes. Somente um, em pré-estreia, está sendo anunciado. Os outros serão surpresa. Você já deve ter visto o trailer de Sétimo, de Patxi Amézcua. Darín faz um sujeito comum, o típico pai de família.

Todos os dias, Sebastián – é seu nome – e os filhos menores participam da mesma brincadeira. O pai desce pelo elevador, os filhos, pela escada. O desafio é para ver quem chega primeiro. Nesse dia, algo se passa no trajeto entre o sétimo andar e o térreo. As crianças somem. Começa uma caçada implacável. Para completar o programa do Noitão, que, como sempre, culmina com o café da manhã, não faltam atrações estreladas por Darín. Quais serão os filmes escolhidos? Seria bom se um deles fosse O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella, que ganhou o Oscar de filme estrangeiro – o segundo do cinema argentino, após A História Oficial, de Luis Puenzo – , ou então La Señal, a única experiência de Darín, até agora, como diretor.

Darín nasceu em janeiro de 1957 – dia 16 – em Buenos Aires. Filho de atores – o pai se chamava Ricardo Darín, como ele, a mãe, Renee Roxana -, Ricardo Jr. estreou no palco aos 10 anos, numa peça protagonizada pelos pais. Fez comédias. E adquiriu projeção em seu país, na TV, com uma série chamada Los Galancitos. Surgiu, portanto, como galã, e até hoje não perdeu a forma. Talentoso, teve a sorte de se ligar aos diretores que estavam dando forma ao novo cine da Argentina. Que cinema é esse? Apesar das permanentes crises econômicas que assaltam o país vizinho, a Argentina não tem a desigualdade social do Brasil. Se teve escravidão, o país não a praticou como o Brasil. Os africanos vieram somar à constituição racial e social brasileira, e datas como o Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, lembram como a desigualdade se funda sobre bases econômicas.

Na Argentina, a servidão era outra. É um país de classe média, sem a dicotomia morro-favela/asfalto. Mas outras características são comuns aos dois países (às duas culturas?). O protagonista de Nove Rainhas, de Fabián Bienlinsky, é um trapaceiro veterano que se une a um jovem (Gastón Pauls) para aplicar um golpe. Darín tem o tipo – a cara de ‘bruto’ – para ficar estereotipado nesse personagem.

Logo veio O Filho da Noiva, seu segundo Campanella – o primeiro foi El Mismo Amor, la Misma Lluvia -, e ele fez o filho dedicado, apesar de atarefado, cuja mãe sofre de Alzheimer. Ela, a mãe, era Norma Aleandro, a grande dama do cinema argentino. O pai, Hector Alterio – e a dupla protagonizou A História Oficial. A trama do filme é que, juntos há tanto tempo, papai vai realizar o sonho de mamãe, casando-se na igreja. Só que ela mal se lembra desse sonho, por causa da doença. Quiprocós românticos e familiares – os problemas da mãe, do filho – compõem o simpático relato.

Antes de Campanella, Darín já havia trabalhado com diretores de prestígio na Argentina, como Sérgio Renan (La Fiesta de Todos) e Adolfo Aristarain (La Playa del Amor, La Discoteca del Amor e The Stranger). Mas foi o encontro com Campanella, e depois, com Bielinsky, que mudou sua vida. Filmes como El Aura e Luna de Avellanada, e também o maravilhoso Kamchata, de Marcelo Pyñeiro, estabeleceram Darín como ‘a cara’ – o cara – no cinema argentino. Cada vez mais os diretores o requisitavam. Com Pablo Trapero, foram também dois filmes, Carancho e Elefante Branco. E chega-se a Relatos Selvagens. Um filme limite, sobre gente que perde o controle da própria vida. São diversas histórias – esquetes. No de Darín, um homem perde o carro, o emprego, a mulher. Acuado, ele se vinga da burocracia estatal, a quem responsabiliza pelo desastre de sua vida, usando as armas de que dispõe. Técnico em explosivos, ele… Você pode imaginar o que ele faz. Como espelho do mundo atual, o homem comum vira celebridade na cadeia, recupera até a mulher.

Com Relatos Selvagens, verifica-se algo desconcertante. O filme, recordista de público na Argentina, segue indo muito bem de público, mas seu circuito encolhe cada vez mais no Brasil. Só o fato de permanecer em cartaz já é uma vitória.

Até blockbusters de Hollywood foram defenestrados das salas para abrigar a estreia arrasa-quarteirão Jogos Vorazes A Esperança, Parte 1, que estreou na quarta-feira em mais da metade (1300 e tantas salas) do circuito exibidor do País. É um bom pretexto para lembrar a entrevista que Darín deu, há um ano, à TV argentina e que foi campeã de compartilhamentos nas redes sociais. Darín disse que recusou o papel de traficante em Chamas da Vingança, de Tony Scott.

Hollywood queria que ele fosse o adversário de Denzel Washington. Ele não quis saber – “Me criticam porque digo que não tenho vontade de ir ao Oscar. Retrucam – como alguém pode não querer ir ao Oscar? Pois eu respondo – por que teria de ir? Hollywood não me tira o sono. O Oscar não me tira o sono.” Isso só deve aumentar o mito de Darín. O cara, além de tudo, é um símbolo de resistência à dominação dos corações e mentes do público pelo cinemão.