(BR 319 – Rodovia da Ilusão)

Bandeira da morte

As casas são fechadas ou abandonadas no ataque dos mosquitos.

Quando saí de Curitiba para me encontrar com Márcio Anater, em Manaus, para iniciarmos a grande aventura pela selva amazônica, levava no bolso um atestado de vacina contra a febre amarela. Ninguém havia me informado que a malária estava matando no Amazonas. A doença estava grassando em todo o norte do País.

A população nativa entre Manaus e Porto Velho já pegou a doença umas duas vezes. Nenhum posto médico ou autoridade sanitária deu-me qualquer orientação ou forma de prevenção contra o mal ou de como proceder caso fosse acometido pela doença. Quando penetramos na selva pela BR-319, rodovia que corta a mata entre Manaus e Porto Velho, nos avisaram que se víssemos uma pessoa sentada à beira da estrada com uma bandeirinha vermelha, era sinal que ali havia alguém com malária. A pessoa estaria esperando passar um carro para levar uma amostra de sangue para ser examinado na cidade. Se positivo o exame (é rapidamente feito na Funasa), o mesmo veículo leva o remédio para tratar o doente. Porém, isso acontecia facilmente quando a rodovia era trafegável. Contam que de 15 em 15 dias um caminhão passava para coletar sangue e transportar as pessoas já portadoras da malária.

A morte vem primeiro

Antônio G. Neto e a triste
convivência com a malária.

?Hoje, esse esquema não mais existe e é comum de acontecer de, quando o remédio chegar para o tratamento, a pessoa já estar morta?, denuncia Antônio Gomes Neto, técnico da Embratel que, em razão do trabalho que faz na área, conhece muito bem a situação de vida dos nativos. Confessando-se indignado com a falta de estrutura, com o desleixo, Neto considera falta de ?respeito ao ser humano a forma como a população da região é tratada?. Nos vilarejos falta tudo, desde água a energia elétrica, porque se definiu que o Amazonas é Manaus, o resto é só mato, selva.Neto diz que não há como imunizar a população contra a malária e que o único tratamento é à base de quinino. A doença tornou-se um problema geral de saúde pública, porque não há assistência, não há tratamento eficaz, não há campanha de esclarecimento para prevenção. ?Você não ouve falar de malária no sudeste, no sul, no centro. Aliás, malária só existe no Brasil e na África, sendo que lá o combate está muito mais avançado. Nós aqui não temos nem prevenção?, atacou Neto.

Doença mascarada

Os mais de 100 trabalhadores que estão na selva instalando fibra ótica estão isentos da febre amarela porque foram vacinados. ?Uma vez vacinado, não pega.? Já com a malária não acontece o mesmo. Neto adverte que se o cidadão estiver com os sintomas da malária e tomar remédio para dor de cabeça, ou analgésico, o tratamento vai mascarar o exame, pois então o portador do mal achara que não precisa fazer dois ou três exames para constatar a doença. Mas os próprios nativos daqui já sabem quando estão com malária.

Por milagre, Raimundo de Castro
não morreu de malária.

Mas nós não. Quando estamos com dor de cabeça e febre, sintomas da malária, não tomamos nada. Estamos instruídos para isso para não mascarar. Tem um senhor aqui na estrada que já pegou 12 vezes em um ano. Automaticamente, já não sente nada. ?As pessoas passam a nem sentir mais os sintomas ou até nem pegam com a mordida do mosquito.?

Mosquito trasmissor

Só o pessoal nativo consegue identificar o mosquito transmissor da malária. Quando há possibilidade, ele é mostrado pelos moradores da região para os que são de fora. O mosquito ataca durante duas horas e meia: das cinco às seis e das 16h30 às 18h, esses são os horários perigosos. Tratamento não há, a não ser alguma coisa à base de quinino. Neto pediu para observar as casas fechadas na estrada.

Muitas delas, nessas horas, não estão fechadas por falta de habitantes, ?tem muita gente lá dentro, mas estão fechadas para não entrar o mosquito da malária?. Informou que os nativos não usam repelente ?que não adianta muito, mas uma outra forma de tentar repelir o vetor?. Pessimista, Neto diz que, fora esses recursos improvisados, ?é rezar para não pegar, porque se você ficar atolado oito dias, morre mesmo?, sentenciou Gomes Neto.

Uma das primeiras orientações que recebemos quando chegamos na antena do Marielson foram os cuidados que devíamos tomar no amanhecer e no anoitecer. Como só tínhamos repelente, tomávamos banho com ele. Fomos favorecidos pela condição climática, pois não parou de chover durante todo o tempo e isto evitou que as águas empoçassem, lugar preferido para o mosquito se reproduzir.

Mulher salva marido

Nilda Torres de Castro Mocinha, presidente da Comunidade de São Sebastião de Igapó-Açú, conta que salvou seu marido Raimundo de Castro da malária por milagre. ?Eu fiquei nove dias fora a serviço da comunidade e, quando voltei, ele estava quase morto. Só cheguei a tempo graças a um amigo que me trouxe, porque a secretaria da Prefeitura não tinha carro para me trazer e, se tivesse, não teria óleo nem gasolina. Aqui tudo é difícil?, exclamou Mocinha. Ela também concorda que o pessoal reza para não adoecer e, se adoecer, reza para não morrer, ?porque o problema é sério?, confessa.O terrível é a constatação de que a falta de ação do poder público acaba por resultar no conformismo da população. Malária, para eles, é como gripe para nós aqui do sul.

(No próximo domingo, vexame no aeroporto e história do catarina).

A traficante fatal

Patrícia Lorena, acabada,
na hora da prisão.

Alta, olhos e cabelos negros, corpo escultural (um misto de espanhola com indígena), sensualíssima, poder de sedução irresistível, mulher fatal que arrasava corações; se hospedava nos melhores hotéis, freqüentava as mais ricas lojas e as mais badaladas praias. Assim Márcio Anater começou a contar a história de Patrícia Lorena, peruana presa em Tabatinga, Amazonas, onde ele trabalhou como delegado da Polícia Federal por mais de dois anos. A história foi contada enquanto fazíamos nossa aventura pela selva amazônica, tentando chegar à civilização pela BR-319 Manaus – Porto Velho.

A desgraça de Patrícia, conta Márcio, começou no Aeroporto de Tabatinga, fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Ela estava para embarcar para Manaus, levando quase l, 5 kg de cocaína em cápsulas por entre os seios e por debaixo de um ?body?, cápsulas que ela deveria ter engolido e não conseguiu. Naquele fatídico dia, Patrícia fazia o serviço de ?mula?, o primeiro conforme confessou ela. Trabalhava para uma quadrilha de bolivianos, colombianos e holandeses. Foi contratada numa ?casa de mujeres? (prostíbulo) na Bolívia, onde exercia a prostituição para fugir da miséria no Peru, onde deixou os filhos. Um dos chefões, depois de uma visita à casa, gostou da postura dela e a cooptou para o tráfico. Foi para o Rio de Janeiro, onde recebeu um apartamento para morar e 8 mil dólares por mês.

O delegado Márcio Anater
conta como Patrícia ?caiu?.

O serviço da ?bela estonteante? era dar apoio logístico à quadrilha. Sua sensualidade e beleza ?abriam as portas?. Por isso, era utilizada para transportar o dinheiro da quadrilha, principalmente aquele que pagava os colombianos, o que a levava a constantes viagens a Tabatinga. Na cidade, enquanto não trabalhava, arrasava corações e excitava a imaginação dos homens. Enquanto estava no Rio, recepcionava e alojava os ?mulas? que vinham de Tabatinga (final da viagem) e recebia os que vinham da Europa (para iniciar nova viagem da droga colombiana).

Sua missão, dizia Patrícia, era preparar o ?mula? para que ele não chamasse a atenção. Para isso, os levava a shopping, cinemas, praias, etc. Se ele não tivesse uma boa postura, dava dicas para corrigí-lo e, se necessário, dava um banho de loja neles. Embarcavam como simples viajantes, mas no estômago ou no forro falso das malas viajava o ?veneno branco?. Tudo deu certo durante um ano, período em que apenas o namorado de Patrícia foi preso, no aeroporto de São Paulo.

Na última viagem de Patrícia, tudo começou a dar errado quando o ?mula? ficou com medo e desistiu da empreitada. Como os traficantes tinham um ?contrato?, não houve tempo para achar outro transportador. Os chefes da quadrilha determinaram que Patrícia desse sua contribuição: levava ou morria, segundo ela revelou. Como não conseguiu engolir, Patrícia resolveu colar a droga no corpo, passando por cima uma roupa colante. E foi isso que chamou a atenção dos policiais federais, pois ?a barriguinha? que ficou não era de mulher grávida e não combinava com o corpo escultural da bela peruana, lembra o delegado Márcio.

Ao ser revistada, começaram a cair as 140 cápsulas com cocaína. De nada serviram as propostas que fez aos PF, inclusive o ?qualquer coisa?… foi presa! Ao ser interrogada, resolveu colaborar, o que levou à prisão do chefe da quadrilha, um dia depois, já no Rio de Janeiro. O juiz federal levou isso em considerarão e reduziu a pena. Recolhida na prisão em Tabatinga, Patrícia lamenta pelos filhos que estão no Peru.

Romance aponta as causas

As crianças são as
maiores vítimas da subnutrição.

Extraído do romance Amazônia, de Elmer Pontes, o diálogo a seguir tem ligação estreita com história da malária, como se alimenta o povo nativo daquela região, e as causas de outras doenças:

?Já se aproxima o meio-dia, e o médico transpirava intensamente. Mas tinha um ar de grande contentamento. Explicou ao grupo o que sucedera:

– Era uma família de caboclos descendentes de índios e portugueses o principal grupo populacional da Amazônia. Um menino de cinco anos estava desidratado. A falta de higiene ocasionou a doença e a má nutrição agravou seu estado. Orientei a família sobre os procedimentos de higiene e sobre a alimentação. Ajudei a preparar um soro caseiro, com água fervida, sal e açúcar. Não havia mais nada que pudesse fazer. Mas o garoto deve melhorar.

– Qual a alimentação básica dessas populações? Quis saber Ricardo.

– Estes solos são pobres para agricultura e não fornecem uma dieta diversificada. A mandioca, cuja cultura foi herdada dos índios, é responsável por 80 por cento das calorias ingeridas pela população. É consumida sob diversas formas tradicionais, como a farinha, o beiju, a tapioca e o tucupi. São alimentos saborosos, mas pobres em elementos nutritivos, além do elevando valor calórico. Por isso, a dieta deve ser complementada com pescado e, em menor escala, com caça.?.

Nós vivemos essa realidade em todas as comunidades em que passamos ao longo dos 350 km da BR-319. Dizem que é assim em todo o Amazonas.