A antropologia ambiental desenvolve estudos que se orientam para a população e o meio ambiente, com abordagens ecológicas, e para o ambientalismo como movimento social contemporâneo, com abordagens etnográficas.

Paul E. Little, doutor em antropologia e professor de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), ao proferir palestra na Universidade Federal do Paraná (UFPR), enfatiza três aspectos da vertente dos estudos ecológicos: o trabalho em escala microrregional, que vai além do âmbito da etnia, mas não chega a ser nacional; a ampliação exponencial da temporalidade histórica com a incorporação do tempo biológico e geológico e o novo interesse de estudos sobre a territorialidade no final do século XX.

d43.jpgQuanto à vertente do ambientalismo, ela diferencia-se da vertente ecológica, principalmente por usar metodologia etnográfica. Não estuda a relação do grupo com o meio ambiente, como faz a ecológica, mas estuda os ambientalistas e o ambientalismo como movimento social contemporâneo.

Nesse contexto, Little destaca quatro linhas. Primeiramente a pesquisa dos movimentos ambientalistas, com particular ênfase na vertente do socioambientalismo. Lembra que, nos anos 70s, grupos como de seringueiros chamam a atenção dos grupos ambientalistas. Atualmente, movimentos que passam a questionar barragens e pedir outra política energética, tornam-se importantes temas de pesquisa para os antropólogos.

A segunda linha de pesquisa diz respeito aos territórios ambientalistas. Little relata que na Amazônia existem grandes parques nacionais e outras unidades de conservação com pessoas morando ali. Destaca que uma área protegida, além de ser uma área natural é uma área social. Por que os estudiosos insistem nisso? Porque especialmente na década de 90 realizaram-se grandes debates no Congresso Nacional a respeito da superposição de áreas indígenas e quilombos, por exemplo, ou de áreas de preservação ambiental e de populações tradicionais em torno da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, finalmente aprovada em 2000.

A terceira linha de pesquisa destacada por Little diz respeito à defesa dos direitos ambientais, característica dos últimos dois séculos. E destaca, ainda, a linha de pesquisa dos discursos ambientais que procura compreender a maneira como os grupos entendem o ambiente e a natureza, questionando-se sobre o que é a natureza.

O futuro da antropologia ambiental

No futuro para onde vai a antropologia ambiental? Little destaca que são necessárias pesquisas nos ambientes virais, relacionados à propagação de doenças como a aids. ?É preciso entender a demografia, os comportamentos sexuais, os valores que envolvem o uso de camisinha, tabus e políticas públicas e como lidar com as novas doenças. A antropologia tem muito a dizer sobre isso?, ele explicou.

Mas são necessárias também pesquisas nos ambientes virtuais para entender a comunidade virtual ou que identidade é criada mediante a internet, que é diferente daquela que se cria face a face. Além disso, esclarece Little, não podem ser deixados de lado os estudos antropológicos sobre ambientes de guerra. E questiona: ?Como as crianças sobrevivem, depois de ter perdido a família toda, como adultos? Como lidar com os traumas? As ciências sociais têm muito a dizer. Entender o ambiente de guerra requer um tipo de sensibilização extraordinária do pesquisador?.

Estudos antropológicos de ambientes humanos continuam em áreas rurais e em áreas urbanas. Enfim, a questão ambiental está na pauta da antropologia, comenta Little.

Little, que é também orientador de pesquisas antropológicas ambientais, diz que orientou a pesquisa sobre conflitos socioambientais realizada no Paraná. Na dissertação de mestrado de Leonardo Augusto Schiocchet, de 2005, O que o homem proíbe na terra, Deus traz pelo mar: conhecimento, conflito e mito na Vila da Barra do Superagüi, o Ibama aparece não como instituição, mas como agente que causa impacto.

Paul E. Little terminou respondendo à dúvida levantada por um dos presentes a respeito da palavra sustentabilidade de que tanto se fala e sobre seu real significado. Disse que a palavra, que vem sendo utilizada nos últimos 15 anos, começou a ser utilizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) nos anos 80, para combinar idéias economicistas e ambientalistas com o desenvolvimento sustentável. Mas todo mundo se apropriou da palavra, desde o Banco Mundial até os pescadores e hoje cada qual dá um sentido diferente.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná

zeliabonamigo@terra.com.br