Deus deu uma espiada em sua última criação o Mundo e concluiu que era preciso fazer alguma coisa. Do jeito que estava não poderia mais ficar. A bagunça era tanta que mesmo seus divinos olhos e neurônios eternos não podiam entender. Guerras, revoluções, ditaduras, bombas, terroristas, valores morais e religiosos se decompondo, oceanos de corrupção varrendo as nações, lances que faziam o gosto de seu vizinho de baixo, Lúcifer, que diariamente estava ampliando suas instalações e aumentando o número de caldeiras.

Olhando para uma grande área (8,5 milhões de Km²) notou que havia um país que se autodenominava “o maior país católico do Mundo”. Era por alí. Decidiu por fazer um outro dilúvio e começou a procurar um homem capaz de dirigir o movimento, construindo uma nova arca com 150 côvados de comprimento, uns 3 andares. Achou que côvado, com seus 66 cm. cada um era medida boa.

Campeou, campeou e achou. O cidadão se chamava Noé de Souza e tinha três filhos: Sem, Cam e Jafé. Era honrado, trabalhador, probo cidadão, pilar da comunidade, honesto, de reputação ilibada, já era nome de rua. Não foi fácil achar o Noé mas Deus é Deus e tudo pode.

Convocou o eleito para uma reunião, explanou o plano do novo dilúvio, detalhou a construção da Arca e fêz a dotação de uma excelente verba.

Noé chamou os filhos, formou uma comissão e definiu funções. Sem ficaria com a área administrativa-financeira; Cam seria o encarregado das compras de materiais (madeiras, pregos, parafusos, lonas para cobertura e betume para a calafetação, etc.); Jafé dirigiria o Departamento de Recursos Humanos.

Os três filhos formaram, imediatamente, sub-comissões onde empregaram esposas, cunhados, sogras, os próprios filhos, parentes e amigos.

Jafé, no Departamento de Recursos Humanos iniciou o recrutamento de pessoal e foi perguntar a um gordo grandote chamado Greca o endereço do construtor de uma famosa caravela.

Sem levantou um edifício de 6 andares, acabamento de primeira, ar condicionado central, todo informatizado, com tapeçaria fina daquela em que o pé afunda. Reservou o último andar para o pai, Noé, com dormitório criado por Sid Bergamin, poltronas de couro de novilha, um luxo.

Antes das licitações para compra de material e fazer concorrências, Cam viajou de l.ª classe para dezenas de países, com altas diárias para hotéis 5 estrelas, acompanhado de uma comitiva de 8 pessoas. Demorou para achar a melhor madeira e informou ao diretor Sem que a encontrara num lugar chamado Floresta Amazônica. Sem, sem pestanejar, determinou as compras pelos preços arreglados pelo irmão com um bando de madeireiros clandestinos.

Logo chegaram milhares de metros cúbicos de madeira, toneladas de pregos, parafusos e betume, material que daria para construir meia dúzia de arcas.

Aconteceu que Lúcifer, o Anjo Caído, estava uma tarde furungando a Infernet e se tocou de que essa história da Arca tinha mumunhas e trampos, ah, se tinha. Chamou o diretor do jornal Infernews e mandou detonar a suspeita na primeira página.

Noé, que não tinha linha direta com Lúcifer, ligou para Deus e pediu providências. O Criador, com seu soberano senso de justiça, mandou que fosse feita uma auditoria. Sem, Cam e Jafé pipocaram na parada, com apoio da parentela e dos amigos: “Onde já se viu?! Denúncias sobre nós?”; “Superfaturamento? Nunca fizemos isso!”; “Jabaculês para fornecedores? Jamais!”; “Isso é perseguição política!”; “Coisa do Capeta!” e por aí desandaram explicando e se justificando. Em resumo: eram todos inocentes.

Outro aspecto que o jornal Infernews denunciou era o privilegiamento de animais a serem embarcados, em casais. Os meninos de Noé haviam feito uma lista com os de estimação e com os que mais simpatizavam.

Enquanto reclamavam que tudo nada mais era do que manobras políticas de Lúcifer e seus apaniguados na luta pelo Poder, os filhos de Noé tentaram arregimentar advogados que os defendessem. Apareceram milhares. A construção da Arca virou uma balbúrdia tamanha que Deus e Lúcifer resolveram dar um tempo.

Pelo telefone direto (metade da linha é vermelha e metade azul) concordaram que por enquanto nem mesmo um dilúvio resolveria os problemas da Terra. E desligaram.

Óbviamente, Deus não queria que os homens se danassem. Mas, Lúcifer, precavido, mandou abrir seus portões e pôs mais lenha nas fogueiras…

Wilson Silva

é jornalista e escritor