Xodó da torcida do Paraná Clube ao longo da temporada, o meia Guilherme Biteco virou praticamente um paranista dentro de campo. Mostrando vontade e determinação, mesmo tendo jogado poucas vezes, apenas 22 partidas, sendo quatro os 90 minutos, o jogador de 23 anos era sinônimo de emoção e superação. Não só físico, mas também emocionalmente.

Contratado no final de janeiro, Guilherme Biteco chegou ao Tricolor quase um ano sem jogar, após passar quase todo 2016 sem jogar, por conta de um rompimento nos ligamentos do joelho, em fevereiro, quando ainda defendia o Ceará. Começou a temporada fora de forma e, principalmente, muito abalado. Afinal, dois meses antes havia perdido o irmão Matheus, uma das vítimas do trágico acidente aéreo da Chapecoense, em novembro do ano passado.

A forte ligação com irmão, inclusive, acompanhou toda a trajetória de Biteco no Paraná Clube. No primeiro jogo com a camisa paranista, no dia 5 de fevereiro, na derrota por 1×0 para o Coritiba, no Couto Pereira, ele entrou em campo aos 19 minutos do segundo. Após o apito final, não conteve as lágrimas e chorou muito. Foi amparado pelos companheiros e até por atletas do Coxa. Um ato de solidariedade, uma vez que todos no estádio sabiam o motivo daquela emoção.

No primeiro jogo do ano, Biteco se emocionou muito em campo. Foto: Antonio More
No primeiro jogo do ano, Biteco se emocionou muito em campo. Foto: Antonio More

Uma emoção que se repetiu dois meses depois. No dia 13 de abril, no Barradão, o meia marcou o segundo gol da vitória do Paraná Clube por 2×0 sobre o Vitória, pela Copa do Brasil, e na comemoração tirou a camisa e mostrou uma outra camiseta por baixo, com fotos em homenagem ao irmão. Novamente uma nova comoção no país inteiro. Era mais uma superação.

“Com as atuações que eu estou tendo, ainda é difícil lidar. Choro muito, indo pro treino, voltando, antes de dormir. É difícil. Tenho que ser o pilar da minha família e da família que ele deixou. Estou dando a volta por cima, com a ajuda do grupo. O pessoal tem sido muito bacana comigo e me dado forças para recomeçar”, disse ele, na ocasião.

Aos poucos, o sorriso foi voltando ao semblante, mas sem esconder as cicatrizes do passado. Diante do Atlético-MG, na vitória por 3×2 no Couto Pereira, novamente pela Copa do Brasil, mais dois gols decisivos. Mais uma vez a camiseta com as fotos do irmão.

Nos gols, sempre uma homenagem ao irmão Matheus. Foto: Albari Rosa
Nos gols, sempre uma homenagem ao irmão Matheus. Foto: Albari Rosa

Novo baque

Pela Série B, atuações decisivas, ajudando o time. Até que em junho, mais um baque. Contra o Figueirense, o meia foi substituído aos 13 minutos do primeiro tempo por conta de uma lesão: rompimento do tendão de Aquiles e, em um primeiro momento, três meses fora dos gramados. Na reta final da recuperação, já em outubro, o atleta vinha sentindo muitas dores com uma tendinite patelar e por isso o Paraná optou por uma artroscopia, para que ele voltasse 100% em 2018.

“Foi difícil, a gente fica angustiado em casa, chutando as coisas e descontando até em quem não merece, mas às vezes queremos ajudar. Foi muito difícil pra mim, mas acabei ajudando de outra forma”, afirmou o jogador.

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Aos poucos, Biteco foi mostrando alegria no dia a dia. Foto: Albari Rosa
Aos poucos, Biteco foi mostrando alegria no dia a dia. Foto: Albari Rosa

Então, Biteco teve que ver a evolução do Tricolor na Série B do lado de fora. Mas o que era aguentar mais uns meses sem jogar perto de toda a recuperação que teve ao longo de todo o ano? E isso era nítido no dia a dia. Apesar de seguir sofrendo com a morte de Matheus, as brincadeiras nos treinos, as provocações aos companheiros, viraram rotina. Mesmo sem treinar e com a perna imobilizada. Uma lição de vida que também ajudou os demais jogadores a ganharem um gás extra na busca pelo acesso.

Lado mais solto

Quando a volta à Série A foi confirmada, Guilherme Biteco pôde, enfim, extravasar. No domingo do dia da volta da delegação a Curitiba, foi esperar os companheiros no aeroporto e vibrou muito. E também passou um filme pela cabeça. O tempo inteiro ele vestiu a camisa da Chapecoense com o nome do irmão. Foi assim na carreata e também na festa na Vila Capanema. Era uma comemoração e também uma homenagem.

E veio o reconhecimento, dentro e fora do clube. Na festa no estádio, ele foi um dos mais ovacionados e aplaudidos pela torcida. Por parte da diretoria, um contrato praticamente renovado. “Já acertei os detalhes, só falta assinar”, resumiu Biteco.

Mais um ano vestindo a camisa paranista, mas agora na primeira divisão. Uma volta por cima junto com o clube e agora querendo mostrar que pode ajudar também jogando, deixando para trás o histórico negativo de lesões e construindo, assim como o Paraná Clube, uma nova história daqui pra frente.

Biteco encontrou os companheiros no aeroporto e festejou bastante, não só o acesso, mas a volta por cima em 2017. Foto: Albari Rosa
Biteco encontrou os companheiros no aeroporto e festejou bastante, não só o acesso, mas a volta por cima em 2017. Foto: Albari Rosa