O helicóptero da polícia se aproxima, num sinal de que a delegação dos Estados Unidos está chegando para treinar. As sirenes revelam o esquema de guerra preparado para dar proteção a uma amedrontada nação. Desde o atentado de 11 de setembro de 2001, a rotina dos americanos não é mais a mesma. A desconfiança impera e até a equipe nacional que disputará a Copa do Mundo tem segurança acima da média. São quatro dias no País e a mesma rotina: jogadores cercados por homens fortemente armados.

A proteção vem do alto e de todos os lados. No trajeto do hotel, na região da Avenida Paulista, até o CT da Barra Funda, onde os americanos treinam, ninguém pode se aproximar da seleção. São batedores, segurança privada e o exército dando proteção para Bradley, Altidore, Klinsmann e cia. A ordem do governo dos Estados Unidos é para que “seus filhos não sofram um arranhão” no Brasil, como revelam os membros do consulado.

Munidos de fuzis e espingarda calibre 12, os soldados do exército fazem um corredor de isolamento na Avenida Marques de São Vicente quando o ônibus surge. Ai de quem ousar atravessar no caminho. Na porta do CT, uma base comunitária da PM se reveza por 24 horas. São 50 policiais durante o dia e outros 30 à noite. “Ninguém pode se aproximar. Até agora, nenhum curioso apareceu por aqui”, conta a soldado. Ela e os companheiros têm de ficar de olho em tudo que se passa na movimentada avenida e nos arredores do CT.

Do lado de dentro, além dos 15 seguranças do São Paulo, outros tantos de uma empresa terceirizada olham cada canto de muro ou mato. Crianças, jornalistas, funcionários do clube, todos geram desconfiança dos homens de preto. A turma à paisana, de óculos escuros, rádios transmissores e cara de poucos amigos veio com a seleção.

Uma simples aproximação num caixa eletrônico do CT já vira motivo de preocupação. “O senhor está esperando alguém?”, questiona, em inglês, o segurança. “Aqui não pode ficar enquanto a seleção treina.”

REVISTA EM CRIANÇAS – Curioso é que todos dentro do CT já passaram por minuciosa revista na porta de entrada. Equipamentos são verificados e ainda há o constrangimento de ser apalpado por um segurança. Guarda-chuva e líquidos são confiscados. Tudo que pode levar perigo à integridade física dos atletas, também. Ninguém escapa. Nesta quarta, 700 americanos foram convidados para ver o treino aberto da seleção – cerca de 150 deles foram ao CT são-paulino. Estavam com os nomes na lista, em uma turma com inúmeras crianças.

E nem os pequeninos que não se cansavam de gritar “U-S-A” escaparam do esquema de segurança. Tiveram suas mochilas reviradas, “perderam” a mamadeira ou suco e não puderam adentrar ao CT com as flâmulas dos EUA por causa dos cabos de madeira que poderiam ser utilizados como arma.

“Eles são bem chatos nesse quesito. Pedem que a gente examine tudo, pois têm medo de atentado, de tiros, de bombas”, conta um dos seguranças brasileiros. Inibido, ele até pede desculpas após revirar tudo que acha dentro da mala. “Estou cumprindo meu trabalho.”

O técnico Jürgen Klinsmann garante que a seleção já está se sentindo em casa, mostra descontração, assim como muitos simpáticos integrantes da comissão técnica ou da retaguarda americana. Mas apenas quando estão num ambiente que transmite total segurança.

Se está sendo comum ver seleções interagindo com os brasileiros nos últimos dias, jogando capoeira, dançando com índios e no braço da torcida, no caso dos EUA o mais perto que o torcedor irá chegar será nos jogos – ainda assim, das arquibancadas. “Eles não colocam nem a cara na janela do hotel”, diz outro segurança. O lema é prevenção numa cidade que só pensa em brincar de Copa.