Ajudar a mudar a situação quase falimentar dos clubes brasileiros, fazer ajustes no calendário e recuperar de vez o prestígio da seleção, abalado depois do vexame dado na Copa do Mundo encerrada menos de um ano atrás. Esses são os principais desafios de Marco Polo del Nero, que nesta quinta-feira assume de maneira oficial da presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Serão quatro anos de mandato, período que abrange o Mundial de 2018, na Rússia.

O dirigente de 74 anos, que dirigiu a Federação Paulista de Futebol (FPF) por quase 12 anos, é bastante influente na Fifa – integra o Comitê Executivo – e na Conmebol, sucede o amigo e aliado José Maria Marin com apoio maciço de clubes e federações. Mas é visto com desconfiança por vários setores ligados ao futebol, entre eles os jogadores, que veem nele apenas a continuidade dos métodos que colocaram o futebol brasileiro, sobretudo os clubes, bem perto do abismo.

“A CBF, hoje, está mais dinâmica, na vanguarda”, disse Marco Polo recentemente, em uma crítica velada ao ex-presidente Ricardo Teixeira – deixou o cargo em 2012, alegando problemas de saúde, mas na época estava sob pressão por suspeita de envolvimento em caso de corrupção na Fifa – e também “àqueles que falam sem vir à CBF saber como as coisas funcionam”.

O dirigente refere-se ao fato de a entidade, desde que Marin sucedeu Teixeira, ter passado a financiar as séries C e D do Campeonato Brasileiro e promovido competições como a Copa do Nordeste e a Copa Verde. “A CBF representa e ajuda os clubes”.

Nos últimos três anos, Marin foi o presidente, mas era Del Nero quem de fato ditava o ritmo da CBF e fazia valer seu estilo. Passou a receber dirigentes de clubes e de federações. Como fazia na FPF, abriu sua sala na CBF, onde deu expediente quase diário nos últimos meses, para que pudessem circular livremente, fazer queixas, pedidos. Tem fama de bom ouvinte, embora às vezes pareça distante enquanto o interlocutor gasta saliva.

Aos presidentes de federação destinou mesada para que pudessem investir no futebol de seus Estados – dizem que o “mimo” chega a R$ 100 mil. Com isso conseguiu apoio e votos para se eleger presidente com facilidade.

MISSÕES – Del Nero diz que a função da CBF é representar os clubes e já escalou a sua dupla de ataque – o diretor financeiro Rogério Caboclo e o secretário-geral Walter Feldman – para defender os interesses das agremiações no Congresso, lutando por mudanças na medida provisória que possibilita o refinanciamento da dívida fiscal dos clubes. Também vai se debruçar sobre mudanças no formato do Brasileirão e na distribuição das cotas de televisão, se os clubes quiserem (eles querem).

Outra meta é resgatar o prestígio do futebol brasileiro, via seleção – a responsável principal pelo faturamento de R$ 436,5 milhões que a CBF teve em 2013, segundo seu balanço. “O Brasil sempre foi protagonista e tem de chegar pelo menos à final de todas as competições que disputar. Ser campeão ou não é circunstancial, mas tem de estar na decisão”, entendeu.

Isso não significa que Dunga cairá em caso de insucesso na Copa América do Chile – “ele fica até o fim do meu mandato” – nem que o mundo desabará se o ouro olímpico, meta declarada de Del Nero, não vier na Olimpíada do Rio.

ADVERSÁRIOS – Frio, controlado – jamais levanta o tom de voz -, mas exigente, Marco Polo tem poucos desafetos declarados. Entre eles está o ex-jogador e hoje senador Romário, que no fim do mês passado foi condenado a pagar R$ 20 mil ao presidente da CBF por ter dito, em 2013, que ele “merecia ficar 100 anos na cadeia”. O Baixinho vai recorrer.

Outro é Andrés Sanchez, que se considera traído por Del Nero no episódio da demissão de Mano Menezes e o tem como inimigo publico número um. O novo presidente deverá ter muito trabalho nesses quatro anos. Mas não pretende abrir mão de seu programa preferido atualmente: cruzar o mar de Angra dos Reis (RJ) com seu barco, o My Way, de 52 pés, acompanhado por uma namorada bonita e jovem, outra de suas preferências.