Um campeonato paranaense com um certo ar de nostalgia. É assim que pode ser definida a competição que começa na próxima quarta-feira, dia 21. Após 38 anos, a disputa entre chaves sul e norte está de volta. O resgate da fórmula, entretanto, pouco tem a ver com saudosismo. A decisão foi tomada por dirigentes dos 16 clubes envolvidos na disputa por medida de contenção de despesas. Sem o patrocínio polpudo da televisão, os clubes terão que controlar os gastos com viagens e estadias. A última vez em que o estadual foi disputado entre sul e norte, o sul levou a melhor. Em 1965, o Ferroviário venceu o Grêmio Maringá na final, quebrando uma hegemonia de quatro anos do norte do Estado.

Na versão de 2004, o campeonato estadual será disputado em 16 datas, conforme determinação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A competição vai do dia 21 de janeiro a 18 de abril. As novidades deste ano são o Cianorte, campeão da série A-1 de 2003, e o vice, Nacional, de Rolândia.

Na primeira fase da competição, as 16 equipes serão divididas em grupos Sul e Norte. O grupo Sul (A) é composto, Atlético Paranaense, Coritiba, Paraná Clube, Malutrom, Prudentópolis, Rio Branco, Iraty e Francisco Beltrão. No Norte (B), ficam Adap (Ponta Grossa), Roma (Apucarana), Cianorte, Londrina, Grêmio Maringá, Paranavaí, Nacional (Rolândia) e União Bandeirante.

Na primeira fase, disputada em sete datas, as equipes se enfrentam dentro de suas respectivas chaves. Classificam-se seis de cada grupo para a fase seguinte, na qual as equipes serão divididas em dois novos grupos, com os times jogando entre si. Dessa disputa, em cinco datas, classificam-se as duas melhores da cada grupo, que vão às semifinais, com duas datas. A decisão também será em dois jogos.

Na primeira fase, como o número de jogos é ímpar (7), terão quatro mandos de jogos as equipes melhor classificadas no campeonato de 2003. Já na segunda fase, serão cinco jogos para cada equipe, os três mandos pertencerão às equipes que se saírem melhor na primeira fase.

Esdrúxula

Para o campeonato deste ano, foi encontrada uma solução um tanto quanto esdrúxula para combater as reclamações dos times do interior no que concerne à falta de claendário. Afinal, os contratos com os jogadores duram no mínimo três meses.

Ficou definida uma disputa alternativa para os quatro clubes que forem eliminados na primeira fase. Eles disputarão um quadrangular no qual os dois piores classificados caem para a Série A-1. Os outros dois disputam uma vaga na Série C do Brasileirão, com todas as despesas pagas pela CBF. As duas piores classificadas na primeira fase, mesmo que seja uma delas agraciada com a vaga na série C, estarão automaticamente rebaixadas.

O grande problema é que mesmo tendo ficado entre os piores da primeira fase, um dos clubes já estará garantido na Série C. Benefício que não estará garantido aos clubes que não disputarem o “torneio da morte”, que na primeira fase terão obtido melhor pontuação. Entretanto, como todos os dirigentes votaram a favor do torneio, não adiantará chorar sobre o leite derramado mais tarde, quando a Federação Parananens de Futebol indicar os critérios de classificação para as outras duas equipes que disputarão a série C do Brasileirão.

Revivendo histórias do passado

O campeonato paranaense de 2004 tem sabor de “revival”. Após quase quarenta anos, a competição (ao menos na primeira fase) terá a divisão entre clubes do Sul e do Norte do Paraná – se bem que a separação é meio estranha. Mas, de qualquer forma, reabre-se uma rivalidade que parecia desaparecida do nosso futebol e, por incrível que pareça, tal medida pode agitar a competição.

A chave Sul ficou ‘espaçada’. Com o intuito imaginário de facilitar a vida dos clubes, o Francisco Beltrão acabou sobrando, e encaixado junto de Coritiba, Atlético e Paraná Clube. Isso obrigará o time do Sudoeste a viajar mais de 500 km para jogar contra o Rubro-Negro – o problema se inverte para Coxa e para o Tricolor.

Para os times da chave Norte, abriu-se uma real possibilidade de disputar, senão o título, ao menos uma vaga na Copa do Brasil. Londrina, Maringá e os times “pés vermelhos” tem chances mais claras de chegar à segunda fase do Paranaense. Em contrapartida, os cinco rivais do Trio de Ferro lutam – na teoria – por apenas três vagas, pois alviverdes, rubro-negros e tricolores devem abocanhar as primeiras posições.

Era bem assim no passado. Até 1966, com fórmulas diversas, os clubes ficavam divididos, mas até o final da competição. O Paranaense “Norte-Sul” glorificou clubes de ocasião, como Mandaguari, Operário e Monte Alegre, que conquistaram seus únicos títulos nessa época. Era a época (assim como neste campeonato) do “Coritiba contra o resto”, com sucesso alviverde no início da década e dos clubes do interior na seqüência.

Mas uma tentativa de moralizar o campeonato paranaense deu um tiro mortal no campeonato Norte-Sul. Em 1965, a Federação instituiu a Lei do Acesso, mas manteve a competição dividida por regiões. No ano seguinte, os times foram integrados, formando a Divisão Especial, com doze equipes. De lá para cá, apenas em três vezes o interior levou o título, com Grêmio Maringá (1977) e Londrina (1981 e 1992).