Rio (AG) – A largada da mais tradicional regata de volta ao mundo só acontecerá em novembro do ano que vem, mas, nem por isso, a vida dos cinco velejadores nacionais que vão integrar a tripulação do Brasil 1, primeiro barco nacional a participar da regata, anda fácil.

Este mês, o comandante Torben Grael e os tripulantes Marcelo Ferreira, João Signorini (o Joca), Kiko Pellicano e André Fonseca (o Bochecha) começaram a primeira fase da preparação para os quase oito meses de regata que irão enfrentar. Além das partes técnica e tática, o condicionamento físico dos tripulantes terá papel fundamental no desempenho do barco em sua estréia.

"Serão turnos de três horas. Mas isso não significa que vamos relaxar. Poderemos ser acionados a qualquer momento. Além disso, tudo no barco é pesado e o ritmo, frenético. A parte física será fundamental", analisa Joca, representante brasileiro em Atenas na classe Finn, na qual terminou no 10.º lugar.

O programa de treinamento inclui natação, corrida e musculação, em duas horas e meia diárias de trabalho de força, flexibilidade e resistência. Além disso, alguns, como Marcelo, terão que perder peso. A rotina, no entanto, não abala seu humor.

"Nunca tive que fazer um trabalho de condicionamento físico como esse mas a regata exige. Mas também, vou voltar irreconhecível. Em 20 dias, você perde uns seis quilos. Quero até ver como ficarão esses meninos magrinhos", brinca ele, apontando para Joca e Kiko.

Marcelo foi o último a aceitar o convite. Apesar de ser considerado nome certo na tripulação, ele diz que precisou conversar muito com a família antes de se decidir.

"É o grande projeto da vela brasileira e eu tinha que estar nisso. Só demorei a dar uma resposta porque não sou sozinho, né? Tenho dois filhos pequenos, não dava para ser assim. Mas agora, está tudo certo", afirma ele, três vezes medalhista olímpico na classe Star, ao lado de Torben.

Além dos perigos inerentes a qualquer aventura como essa, os velejadores também vão enfrentar problemas com a alimentação porque a comida é desidratada. Para não aumentar o peso no barco, eles também não vão armazenar água. Toda aquela que for usada terá de ser dessanilizada. Mais experiente em regatas de Oceano, Pellicano demonstra não se assustar com dificuldades.

"A regata é um desafio do qual qualquer velejador gostaria de participar. Há algum tempo venho pensando nisso e agora consegui concretizar o desejo", afirma ele, que já fez quatro travessias do Atlântico, entre o Brasil e a Europa.

Bochecha é o único ausente no grupo. Ele está em Indaiatuba, no interior paulista, acompanhando a construção do barco, que ficará pronto em maio. Depois, o Brasil 1 será trazido para o Rio e, no segundo semestre, partirá para a Europa.

"Em princípio, os barcos vão para a água em igualdade de condições. Temos grandes especialistas trabalhando na construção do barco, velejadores talentosos. Enfim, será uma equipe forte. Se eu achasse que não teríamos chance alguma, jamais entraria em uma aventura dessas", revela Torben, o comandante brasileiro.

A equipe estará completa em janeiro, quando Torben irá anunciar os cinco velejadores restantes. Todos são estrangeiros e a escolha será feita baseada na experiência que possuem em regatas de volta ao mundo. Segundo o comandante brasileiro, esse conhecimento será fundamental, principalmente nos trechos de ventos muito fortes, como entre a Cidade de Cabo (África do Sul) e Melbourne (Austrália); e Wellington (capital da Nova Zelândia) e o Brasil.

A largada da regata será em Vigo, na Espanha, em novembro de 2005. Pelo calendário, os 12 barcos participantes aportarão no Rio ou em São Paulo em março de 2006, depois de passar por Austrália e Nova Zelândia. A aventura terminará três meses depois, em um porto no Mar Báltico.

Reforço gringo

O Brasil 1 pode ser o primeiro projeto verde-amarelo na Volvo Ocean Race, mas nem por isso faltará experiência aos brasileiros na mais tradicional regata de volta ao mundo. Um dos mais importantes construtores de barcos do planeta, o neozelandês Chris Mellow, está em Indaiatuba há duas semanas, trabalhando com o uruguaio Horácio Carabelli e o paulista Marco Landi na construção do Brasil 1.

Mellow, de 32 anos, é o consultor técnico para a construção do barco. Esta é a quarta vez que ele faz parte de um sindicato que disputa a regata de volta ao mundo. Na edição 1993/1994 da corrida, ele fez parte da equipe que construiu o campeão NZ Endeavour.

"Escolhi trabalhar no Brasil 1 porque realmente acredito que o projeto tem chance de concorrer pela vitória. O Alan Adler, que coordena a equipe, conseguiu reunir tudo o que é necessário para um projeto vencedor. A equipe que ele montou, em volta do Torben e de sua imagem, é incrível", analisou.