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Jardim Botânico

Barracões abandonados em Curitiba são a ‘casa do crime’ no Jardim Botânico

“Quem tem telhado de vidro não deve atirar pedras ao do vizinho”. O ditado até se aplicaria à essa reportagem caso os imóveis sobre os quais vamos falar ainda tivessem telhado ou vidro, já que, há um bom tempo, sediaram a fábrica de uma vidraçaria. Vizinhos tem. E já avisamos de antemão: nenhum deles anda muito satisfeito com a situação. Abandonados, os três barracões localizados na Rua Doutor Dário Lopes dos Santos, no bairro Jardim Botânico, em Curitiba, viraram motivo de dor de cabeça entre moradores do local não só por terem virado depósitos de lixo e entulho, mas também abrigo para usuários de drogas e criminosos, que utilizam os locais como esconderijo e ponto de tráfico.

É manhã de segunda-feira. Pela rua onde praticamente só circulam carros, Sheila Fonseca vem a passos apressados. Pela mão direita ela leva uma mochila de rodinhas. Pela esquerda, puxa a filha de 4 anos que tenta acompanhar o ritmo da mãe. “Não posso dar bobeira aqui, desculpa”, ela responde à tentativa de entrevista. Antes de subir a escadaria que dá acesso à Avenida Presidente Affonso Camargo, ela justifica o motivo da pressa. “É que já tentaram nos assaltar aqui”, diz.

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A menos de uma quadra do principal cartão postal de Curitiba – o Jardim Botânico – os galpões depredados destoam da paisagem. Por fora, paredes pichadas e sujeira. Por dentro, pilhas de lixo e sinais de que, apesar de abandonado, o local é frequentado. Nos portões de ferro, um aviso impresso em folha sulfite proíbe a entrada, porém, basta empurrar para acessar o interior dos enormes barracões, que juntos, ocupam quase 15 mil metros quadrados da quadra marginal à Avenida Presidente Affonso Camargo.

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Entre os moradores das cercanias, o complexo de barracões – onde antes funcionava a fábrica de uma vidraçaria – virou sinônimo de risco e falta de segurança. É o que afirma um vizinho do local que se identificou apenas como “Eugênio”. “Aqui é assalto, roubo, furto. Não tem hora pra acontecer”, disse. Apontando para um carro estacionado ele chama a atenção: “se olhar ali dentro vai ver que tem corrente e trava de segurança. Todo o mundo que mora por aqui coloca pra evitar roubo”, ressalta.

Barracões abandonados são motivo de preocupação para os vizinhos no Jardim Botânico. Foto: Felipe Rosa
Barracões abandonados são motivo de preocupação para os vizinhos no Jardim Botânico. Foto: Felipe Rosa

Menos grave seria se o perigo recaísse somente sobre os bens materiais do pessoal. Quem trabalha ali por perto todos os dias já se acostumou à condição de vítima potencial. É o que alegou o cobrador de um dos tubos situados na canaleta do ônibus articulado, situado a alguns metros dos galpões que – por segurança – preferiu não ser identificado. “As pessoas vivem com medo. Dia desses uma moradora de rua foi degolada ali embaixo da ponte. Fura-catraca também é bastante comum. Eles andam armados então a gente não contraria”, afirmou.

Falência

Sem destino certo desde 1999, quando a empresa proprietária dos imóveis decretou falência, os galpões foram, aos poucos, sendo largados à própria sorte. Ao longo da década seguinte, o local chegou a ser alugado por algumas empresas, como o Teatro Guaíra, cuja escola de dança funcionou no número 1899 durante um bom tempo. A situação, no entanto, ficou pior a partir de 2015, quando a manutenção dos imóveis passou a ficar por conta integral da empresa falida e nenhum dos locatários permaneceu no ponto.

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De acordo com o síndico da massa falida, Brasilio Bacellar Neto, o imbróglio judicial se deu por conta de dívidas que a antiga administradora contraíra e, diante da solicitação dos credores, o local teria de ser vendido para sanar parte destes débitos. “A questão da administração do imóvel foi decidida em audiência. A empresa falida requereu a guarda do bem novamente tendo em vista liquidar as dívidas”, revelou. Segundo Brasilio, o imóvel deve ser vendido ainda esse ano. Sobre a destinação dos barracões, o síndico não soube informar exatamente o que deve ser feito. “Provavelmente os imóveis serão demolidos,  mas não se pode afirmar com certeza”, disse.

A Tribuna do Paraná entrou em contato com a “Vidraçaria Cometa”, proprietária do imóvel, porém quem nos atendeu foi a gerente da loja – localizada no mesmo endereço dos barracões. Ela solicitou que, para mais esclarecimentos, contatássemos o advogado da massa falida. A reportagem tentou contato com o representante legal da empresa reiteradas vezes, inclusive deixando recados solicitando retorno das ligações, sem sucesso, até o fechamento dessa reportagem.

Doutor mentira

Sobre o autor

Maria Luiza Piccoli

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