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Curitiba

Doutor mentira

Para Mayara Stubert, 31, o susto aconteceu no mês passado. Perto de fechar os nove meses de gestação. Foto Felipe Rosa.
Maria Luiza Piccoli

Imagine o dramático cenário: você, num quarto de hospital, toca o telefone. Do outro lado da linha, o médico informa que os resultados dos exames que lhe concederiam a alta não foram nada bons. “Parece câncer. E parece grave. Muito grave”, diz o doutor. “Precisaremos fazer mais alguns procedimentos para comprovar se é isso mesmo”, afirma. No susto, você, sem hesitar, não apenas acredita que a situação é a pior possível como também concorda em pagar o valor informado pelo “médico”, que pode variar entre R$ 2 e R$ 15 mil. “Afinal, minha vida está em risco”, você pensa.

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Sabendo que a maioria das pessoas se comporta exatamente dessa forma quando o assunto é o estado entre a vida e a morte, bandidos têm se aproveitado da fragilidade de pacientes em situação de internamento em diversos hospitais de Curitiba e “ressuscitado” um golpe antigo na praça. Se passando por médicos, os oportunistas solicitam falsos exames cujos valores estratosféricos devem ser depositados com urgência, sob falso risco do estado de saúde da vítima se agravar, ou, até mesmo, do pior acontecer.

Para Mayara Stubert, 31, o susto aconteceu no mês passado. Perto de fechar os nove meses de gestação, a auxiliar financeira precisou correr para o Hospital Nossa Senhora de Fátima, no Centro de Curitiba, após um episódio de pressão alta. Por precaução, ela foi encaminhada ao internamento até que saíssem os resultados de alguns exames solicitados pela obstetrícia da unidade. Tudo ia bem, até que o telefone do quarto tocou. “O rapaz do outro lado da linha se identificou como responsável pelo laboratório do hospital. Ele disse que meus exames deram suspeita de leucemia e que o corpo clínico já estava ciente da situação”, lembra. E a história continuou bastante convincente. “Afirmando que meu plano não cobria os exames complementares, ele informou que, para confirmar o resultado, o hospital precisaria alugar um equipamento especial cujo valor diário era R$ 15 mil. Eu desliguei o telefone e comecei a chorar”, revela.

Por sorte, a família de Mayara agiu rapidamente e contatou a administração do hospital, que desmentiu a situação. “Meu marido imediatamente foi atrás de esclarecimentos e a gerência da maternidade afirmou que aquilo se tratava de um golpe”, disse. Depois do susto, um único sentimento: indignação. “Me vi vulnerável porque eles sabiam meu nome, número do quarto e plano de saúde. Não fosse a sagacidade do meu marido eu, com certeza, teria caído naquela conversa”.

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Infelizmente, nem todo o mundo teve a mesma sorte. Os últimos dados levantados pela Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Fehospar) apontam que 12 boletins de ocorrência foram registrados na Delegacia de Estelionatos e Desvio de Cargas de Curitiba no período entre o fim de 2013 e início de 2014 quando os golpes estavam “bombando”. Acredita-se, porém, que o número seja bem maior, já que nem todo o mundo recorre às delegacias para denunciar esse tipo de ocorrência.

Histórico

Conforme explica o presidente da instituição, Renato Merolli, o golpe surgiu em 2011 e, mesmo conhecido, continua sendo aplicado com frequência em todo o Brasil. Por meio de nota encaminhada à Tribuna, ele descreve como as abordagens costumam acontecer. “Os golpistas obtêm informações sobre pacientes que se encontram em período pós-operatório e fazem contato a partir do telefone do quarto de internamento. Fazendo-se passar por médicos, tranquilizam a vítima sobre o procedimento realizado, dizendo ser imprescindível o uso de medicamentos importados, por exemplo. O valor é negociado conforme a reação do paciente, com vários contatos feitos a partir de então entre as partes via celular”, esclarece.

Golpe baixo

De acordo com o delegado titular da delegacia de estelionatos de Curitiba, Leonardo Carneiro, o “golpe do falso médico”, apesar de menos frequente nos últimos anos, ainda têm feito vítimas em Curitiba. Semelhante ao antigo “golpe do sequestro”, a ação é praticada por criminosos de perfil bastante similar. “Normalmente são pessoas que realizam as ligações de dentro das próprias carceragens. Dos casos apurados pela nossa equipe, grande parte tem essa procedência, porém é difícil traçar um perfil exato dos criminosos”, afirma.

A técnica utilizada pelos bandidos, segundo Carneiro, é sempre a mesma. “Em quase 100% dos golpes, eles se aproveitam de pessoas em situação de emergência”, pondera. Segundo o delegado, a melhor prevenção é estar consciente a respeito da praxe hospitalar e buscar esclarecimento sempre que situações como essa acontecerem. “A recomendação é de que quando alguém fizer algum contato nesse sentido, o paciente ligue para a administração do hospital e se informe, antes de qualquer coisa. Vale lembrar o paciente de jamais fornecer dados pessoais por telefone e avisar o médico responsável imediatamente para que a instituição tome as procedências adequadas”, finaliza.

bilhete1E os hospitais?

Tendo em vista que esse tipo de golpe é mais comum do que se imagina, a Tribuna entrou em contato com algumas das principais instituições de saúde da capital para saber o que tem sido feito para alertar os pacientes. Confira:

A Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Fehospar) também se pronunciou sobre o assunto. A entidade informou que tem orientado os estabelecimentos prestadores de serviços quanto a adoção de medidas preventivas, o que inclui mecanismos informativos de orientação a funcionários, pacientes e familiares, de que nenhuma quantia monetária pode ser cobrada que não as devidamente esclarecidas pela instituição e pelos médicos assistentes.

Além disso, a Fehospar ressaltou que, em alguns casos, ações mais radicais são indicadas como a retirada de telefones das acomodações hospitalares e proibição de que funcionários prestem qualquer tipo de informação por telefone.

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Maria Luiza Piccoli

Maria Luiza Piccoli

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24 Comentários em "Doutor mentira"


Diogo Marcondes
Diogo Marcondes
3 meses 19 dias atrás

Funcionário do hospital metido no golpe, até pra visitar um enfermo vc precisa passar seus dados, por telefone a mesma coisa, precisa confirmar o nome do paciente. Os bandido já ligam pra uma pessoa direta sabendo de tudo, com certeza alguem de dentro passa as informações!

Mais Do Mesmo
Mais Do Mesmo
3 meses 29 dias atrás

Certeza que tem gente do hospital metida nesse golpe. Como saber que tal paciente está no quarto X e fez tais exames? Falcatrua.

Luiz
Luiz
3 meses 19 dias atrás

Verdade.

Нилцеу
Нилцеу
3 meses 29 dias atrás

Uma coisa é certa: O in-fer-no e o bel-ze-bu existem mesmo, pois se não existirem noutra vida, existe por aqui mesmo, pois se aproveitarem da vulnerabilidade de uma pessoa doente, só mesmo se fizer parte desse esquema – ca-pe-ta + lúcifer.

Luiz
Luiz
3 meses 19 dias atrás

É o que sempre digo, o inferno é aqui mesmo.

Negro Preto
Negro Preto
3 meses 27 dias atrás

Estamos todos no inferno, meu caro, cabe a nós mesmos tentar sair ou se acomodar neste.

Нилцеу
Нилцеу
3 meses 29 dias atrás

*digo: in-fer-no + lúcifer

Wade Wilson
Wade Wilson
4 meses 45 minutos atrás

O que consola é que o dinheiro que esse tipo de lixo ganha é maldito. Os caras nunca conseguem parar de enganar as pessoas e um dia enganam um peixe maior do que eles e dai vão conhecer o caixão pelo lado de dentro.

Lembrem-se, golpistas: sempre tem um peixe maior do que vocês

Cláudio
Cláudio
4 meses 1 hora atrás

Xadrez pra os vagabundos que transmitem informações confidências de forma privilegiada.
Se é com um familiar meu, esse pilantra é caçado o de estiver.

Carlos Gomes
Carlos Gomes
4 meses 2 horas atrás

Infelizmente esse golpe só acontece pq tem alguém do hospital no meio repassando informações, de qq forma se a pessoa não for desesperada com qq coisa que falam não cairá nesse golpe, pois todo valor a ser pago tem que ser no hospital e não em conta de terceiros

MARCELO PADILHA
MARCELO PADILHA
4 meses 2 horas atrás

Povo lixo, que se junta a empregados escória do próprio hospital (que vazam as informações sigilosas, obviamente), para prática de golpe mais sórdido impossível. Eu não vejo outra solução para esses estrumes, que não seja passar todos, sem exceção, com ponto quarenta. É um balaço na cachola, e mais um CPF cancelado com sucesso.

Exterminador Leo
Exterminador Leo
4 meses 2 horas atrás
A maior máfia é a de branco. Eles te extorquem na cara dura. Você, mesmo tendo plano de saúde bom, vai fazer uma cirurgia. Aí eles começam com o papo de que o instrumentista, anestesista e outros istas não trabalham pelo plano de saúde. Você pergunta quanto vai custar e ele diz que R$ 2.000 e tem que ser pago em dinheiro para ele, que repassará para todos os envolvidos. Você pergunta se vão te dar nota fiscal de serviços ou recibo e ele diz que não e que isso é assim mesmo. Só que não. E isso acontece em… Leia mais »
Carlos Gomes
Carlos Gomes
4 meses 2 horas atrás

Esses “istas” que só aceitam em dinheiro e sem NF e comprovante tem que ser denunciados, pois as oportunidades que precisei pagar, peguei uma vez recibo com dados completos e na outra mais recente o hospital me deu nota fiscal (sempre paguei no hospital, problema é que as pessoas tem medo de questionar e denunciar certas práticas)

emerson benkendorf
emerson benkendorf
4 meses 3 horas atrás

Engraçado que na reportagem nem mencionam a responsabilidade dos hospitais. Quem passa as informações para o estelionatário é um funcionário que tem todas as informações ou ele mesmo. O hospital tem o dever de fiscalizar seus funcionários. Tb é normal pacientes do sus serem extorquidos pelos médicos de hospitais conveniados. Ninguém faz nada. Ex. É o próprio delegado que joga a batata quente para o paciente.

Alberto  João Pucci
Alberto João Pucci
4 meses 6 horas atrás

´Cá entre nós: Estando internada(o) em Hospital, cair neste tipo de golpe!!!!!

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