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Curitiba

Ex-morador de rua por 20 anos vira ‘professor’ em Curitiba

Seu João era morador de rua e com perseverança conseguiu se formar em Educação Física. Foto: Felipe Rosa / Tribuna do Paraná
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Escrito por Lucas Sarzi

Sabe aquele tipo de gente que, de olhar para a pessoa e ver o sorriso no rosto, jamais imaginaremos o caminho percorrido para chegar até aqui? A vida de João Barbosa da Silva Filho, de 61 anos, é mais ou menos assim. Depois de sair de Manaus, no Amazonas, ele foi morador de rua por quase 20 anos, passando por São Paulo e Curitiba, até conseguir realizar o maior sonho da sua vida, o ensino superior. Há menos de um mês, João comemorou a graduação tão esperada e, embora se sinta vitorioso, não quer parar por aí não.

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João contou que saiu de Manaus aos 21 anos e viveu a maior parte de sua vida sozinho. “Fui para São Paulo, onde morei na rua por muito tempo. Lá eu fiquei 21 anos, mas a maior parte disso sem sequer ter nada. Vi de tudo, de coisa boa até as piores situações que se possa imaginar, e isso também me fez muito mal, porque na rua nós estamos perto de tudo: droga, bebida, você vai se estragando”.

Depois de 21 anos em Sampa, João se mudou para Curitiba, onde já vive há 19 anos. “Aqui eu comecei a viver cuidando de carros. Eu passei muita fome, porque muitas vezes não tinha nem dinheiro para comprar um lanche. Ao mesmo tempo, aprendi muito a viver e a valorizar as poucas coisas que fui conquistando”, disse o homem.

Desde quando saiu de Manaus, João tinha em mente a realização de um sonho: o ensino superior. “Mas eu não sabia ao certo qual faculdade queria fazer, até porque quando vi a chance de poder realizar meu sonho eu já estava com mais idade. Quando fui me inscrever no FIES tinha uma mãe inscrevendo o filho para educação física e foi aí que me deu vontade de experimentar o curso. No fim das contas, encontrei a profissão da minha vida”, comentou João.

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Aos 54 anos, João certamente era o aluno mais velho da turma e, além dessa questão, tinha que lidar com outras dificuldades pessoais, entre elas a de dinheiro. “Eu tinha em mente a realização do meu sonho, mas sabia que não tinha condições, então fracionei a faculdade e fui cursando conforme podia pagar. Num semestre pagava menos aulas, no outro um pouco mais, e assim fui fazendo até terminar”.

Ao invés de concluir a faculdade no período comum, que seria de quatro anos, João fez a faculdade em sete anos por dificuldades financeiras. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná
Ao invés de concluir a faculdade no período comum, que seria de quatro anos, João fez a faculdade em sete anos por dificuldades financeiras. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Ao invés de concluir no período comum que seria de quatro anos, João fez a faculdade em sete anos. “Foi muito mais tempo e isso me tornou o mascote de várias turmas, porque embora eu fosse o mais velho, todo mundo me respeitava muito e me tratava bem. Poucas pessoas sabiam por completo da minha história, mas muita gente viu em mim um grande exemplo de superação, então me incentivavam a não desistir”.

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Estagiário dos bons

Quando começou a faculdade, João descobriu que precisava fazer algumas horas complementares para o currículo do curso e foi atrás. “Ele apareceu, em 2014, pediu para fazer atividades complementares. Nós achamos diferente por já ser um senhor idoso, que estava cursando faculdade e fomos atrás de entender a história dele. Quando soubemos a história, simplesmente o adotamos e demos uma oportunidade de estágio”, contou Alessandro Hendler, secretário de esportes de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba.

Trabalhando como estagiário no Centro de Esportes Ney Braga, na cidade da RMC, João teve ainda mais chance de continuar em busca de realizar seu sonho. “Nós realmente o abraçamos, unimos forças e até uma motocicleta conseguimos dar para ele, a partir de uma ajuda de todos os funcionários e do próprio seu João. Fizemos de tudo para que ele continuasse a faculdade e tivemos, como retorno, muito trabalho, pois ele se tornou um grande exemplo para todos nós, a começar por pontualidade”.

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Alessandro considera João não só como um exemplo aos que estão por perto dele, mas também para as demais pessoas. “Ele foi adotado não só pela secretaria, mas também pelos atletas, porque faz muito mais do que é a parte dele, vai além. É uma pessoa que tem uma história que faz a gente mesmo parar para pensar na gente. Às vezes reclamamos de pouca coisa e quando paramos para analisar, vemos que não temos do que reclamar”.

Não para por aí!

Formatura foi o momento mais marcante da vida de João. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná
Formatura foi o momento mais marcante da vida de João. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

João estudou no Centro Universitário UniDomBosco, onde disse ter sido muito bem atendido, até mesmo por suas necessidades e por entenderem sua situação. Ele disse à Tribuna que sua formatura, que foi no último 10 de agosto, foi o momento mais marcante de sua vida. “Eu sempre fui muito tímido, então quando me deram os convites, chamei as pessoas e pensei que ninguém iria. Enquanto via os alunos sendo chamados e aplaudidos, pensei que não teria ninguém para me aplaudir, mas fui surpreendido”, contou.

Segundo o relato do próprio João, no momento em que foi chamado para pegar o canudo e assinar a graduação, ele quase perdeu o chão. “Todo mundo me aplaudiu, não só as pessoas que eu tinha convidado. Eu pensava que não tinha ninguém por mim, mas acabou que fui o mais aplaudido. Sinceramente? A ficha nem caiu ainda de tanta emoção”, lembrou ele, com lágrimas nos olhos.

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Apesar da formatura, João, que nem pegou o diploma ainda, já pensa em continuar estudando. “Quero muito fazer uma especialização, continuar aprofundando ainda mais os estudos. O que eu preciso é ter condições para fazer, mas se eu conseguir, vou estudar até sentir que conquistei tudo que eu queria”, disse, empolgado e com sorriso no rosto.

Há mais de 40 anos sem ver sua família, João não consegue sequer imaginar como estão seus cinco irmãos. “Eu queria muito poder vê-los, porque minha família nem sabe que eu estou vivo. Tenho muita vontade de abraça-los e dizer o quanto evolui na vida, que conquistei o ensino superior. Se isso acontecer um dia, vai ser uma das minhas maiores realizações”.

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Exemplo de vida

“Seu João”, como é conhecido onde trabalha, provavelmente deve ficar por lá após a graduação. “Nós estamos buscando diversas formas para fazer com que ele fique com a gente, inclusive processo seletivo. Além disso, também estamos indicando para outras modalidades de auxiliar, para continuar trabalhando em eventos extras. Com certeza oportunidades para ele não faltarão, ele é um guerreiro e vamos continuar ajudando de todas as formas. Ele foi adotado pela gente como um todo”, disse Alessandro Hendler.

Segundo o secretário de esportes, a história de João pode ser vista como exemplo. “A gente tem que acreditar sempre e nunca desistir dos sonhos, mesmo que você pense ser tarde. Quem trabalha, estuda, foca, consegue. Corra atrás dos seus sonhos, que você vai achar pessoas boas, que vão te ajudar a conquistar seus objetivos. Seu João é um exemplo: morador de rua, passou por problemas de doença e, mesmo com tudo isso e a idade, não desistiu. Perseverou e conseguiu”.

Com muita humildade, mas com um sorriso no rosto que traz a certeza de que pode ser considerado um grande exemplo, João faz questão de deixar um recado aos jovens: “Eu saí da rua para ingressar numa faculdade, isso é muito forte. Aprendi que o dinheiro não é tudo, a riqueza não se mede pelo bem que se tem, mas pelo bem que se faz. Lute para viver bem, tenha boas atitudes, caráter e dê atenção a qualquer pessoa, da mais rica a mais pobre e não seja ganancioso. Não se preocupe com o resultado, trabalhe”.

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Sobre o autor

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Lucas Sarzi

Jornalista formado pelo UniBrasil.

(41) 9683-9504