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Barrerinha Curitiba

Restaurante de Curitiba serve marmita aos necessitados e causa polêmica na vizinhança

Sérgio Luis Todeschi, 36 anos, dono do restaurante Anita, que serve refeições a pessoas carentes todos os dias no Barreirinha. Foto: Rodrigo Cunha/Tribuna do Paraná
Escrito por Lucas Sarzi

Sabe aquele ditado que diz “o que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber”? Pois foi exatamente dessa forma que os dois sócios do restaurante Anita, que fica na Avenida Anita Garibaldi, no Barrerinha, em Curitiba, fizeram por aproximadamente cinco anos, mas se viram obrigados a divulgar a ação social por medo de serem impedidos de continuar. Ao longo deste tempo todo, Sérgio e Elizângela sempre serviram, ao fim do expediente, comida a pessoas carentes e moradores de rua, mas incomodaram quem não aprova a ação.

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“Nós começamos por uma necessidade que minha sócia e eu temos em ajudar as pessoas. Sempre tivemos vontade e concluímos que não podíamos mais seguir se não fizéssemos alguma coisa, então surgiu a ideia de servirmos a comida que sobra do buffet para quem precisa, afinal de contas é uma comida que não pode ser reaproveitada no outro dia, por exemplo”, contou Sérgio Luis Todeschi, de 36 anos.

Ao longo de cinco anos, Sérgio e Elizângela, os responsáveis pelo restaurante, botaram em prática o que sonhavam: servem, todos os dias, após as 14h, comida a pessoas carentes. “Sempre que sai o último cliente, começamos a servir essas pessoas que acabamos chamando gentilmente de ‘nossos filhos’, pois são especiais pra gente”.

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Todos os dias, desde quando decidiram começar, o restaurante entrega de 30 a 40 refeições de graça, a maioria para pessoas que não teriam sequer condição de comer em outro lugar. “Destas pessoas, sabemos que pelo menos cinco são realmente moradores de rua, mas tem muita gente idosa, muitas pessoas que são só carentes, que não têm condições, que todos os dias buscam vir até o restaurante para garantir pelo menos uma refeição”, explicou Sérgio.

Ação incomodou

Muitas vezes a marmita do restaurante é a única refeição de quem busca comida no lugar. Foto: Felipe Rosa / Tribuna do Paraná

Muitas vezes a marmita do restaurante é a única refeição de quem busca comida no lugar. Foto: Felipe Rosa / Tribuna do Paraná

Durante todo este tempo, a ação social feita pelo restaurante Anita era da forma que os dois sócios entendiam que deveria ser: sem que ninguém soubesse. “Mas a presença dessas pessoas, por mais rápida que seja e que eles não incomodem ninguém, nem mesmo os clientes, que nunca reclamaram, passou a ser vista de forma negativa por algumas pessoas da vizinhança, que nos denunciaram porque estaríamos criando uma ‘cracolândia’ na região e isso não é verdade”.

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Temendo ter que parar com a boa ação, os dois sócios publicaram uma nota nas redes sociais do restaurante explicando a situação e garantindo que não iriam parar. “Não podemos garantir que todos nossos ‘filhos’ sejam de boa índole, porém, pelo o que conhecemos, eles estão querendo apenas um prato de comida e não formar uma cracolândia. Com tudo, pedimos desculpas se, por causa dessa nossa ação, geramos algum transtorno em seus pontos comercias, já avisamos a todos que quem tiver alcoolizado não ganhará mais comida, entretanto VAMOS CONTINUAR FIRMES E FORTES ajudando os mais necessitados da nossa região”, disseram os proprietários do Anita em sua página do Facebook.

Repercussão positiva

A divulgação do que faziam não era o que Sérgio e Elizângela queriam, pois sempre entregaram as refeições sem fazer propaganda disso a ninguém. “Mas nos vimos obrigados, porque não queremos parar com o nosso objetivo, que é de ajudar alguém e se tornou também o nosso principal foco”, disse o comerciante. Em contrapartida, a repercussão da nota postada nas redes sociais fez com que muita gente o apoiasse e o assunto ganhou repercussão.

“Teve realmente um retorno que não imaginávamos, atingindo mais de 600 mil pessoas só no Facebook, isso sem contar todos os veículos de comunicação que nos procuraram. Era algo que nunca buscamos divulgar, porque realmente não queríamos, mas ao mesmo tempo contar o que fazemos serviu para vermos o quanto estamos certos em seguir em frente”, comentou Sérgio, reforçando que a ideia do restaurante é continuar. “Até apoio da Fundação de Ação Social (FAS) nós tivemos, que está cadastrando as pessoas que recebem a doação, então não vamos parar. Se tiver que adequar de alguma maneira, faremos isso, mas vamos seguir”.

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Só fazer o bem

Restaurante ganhou apoio de tanta gente que sequer sabia da existência da ação social feita ali. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Restaurante ganhou apoio de tanta gente que sequer sabia da existência da ação social feita ali. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Para as pessoas que buscam a comida, o restaurante Anita é uma garantia de que pelo menos uma refeição vão comer no dia. O reciclador Alexandre Diogo de Oliveira, 43 anos, começou a frequentar o restaurante há quatro meses. “Moro em Almirante Tamandaré e tenho quatro filhos. Se eu tivesse que comprar comida enquanto estou trabalhando, faltaria dinheiro para dar alimento aos meus filhos, então eu só agradeço, porque se existisse mais pessoas iguais a eles o Brasil não estaria como está hoje. O que eles fazem não ofende ninguém, porque é uma boa ação”.

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Giovane Freitas, 49, perdeu a mãe, o pai e está afastado da família por causa da bebida. “Já trabalhei como fiscal de prevenção de perdas, mas como estou sem emprego e moro aqui perto, busco a marmita há mais de seis meses. Esse auxílio deles é muito bom. Quando eu tinha dinheiro, passava e via todo mundo almoçando, hoje em dia eu recebo ajuda deles. Converso com as pessoas e saio um pouco da situação que enfrento”.

Acompanhada do marido, a idosa Alzira Ferreira Martins, de 66 anos, foi pela primeira vez buscar comida quando a reportagem da Tribuna esteve no restaurante. Com um sorriso no rosto, a mulher disse que a situação em casa está difícil e, por isso, resolveu pedir ajuda. “Isso faz a diferença para o pessoal. Ganhamos pouco e não temos condições de pagar as contas. Como moramos perto, resolvemos vir buscar a marmita”, comentou Alzira, que mora com quatro pessoas em casa.

Muito além da comida

Com tamanha repercussão positiva, o restaurante ganhou não só mais apoio dos oito funcionários que emprega, mas também de tanta gente que sequer sabia da existência da ação social que é feita ali. Entre os funcionários do restaurante, dois deles se destacam, entre eles Elcio Krita Gomuiski, de 34 anos, que já foi uma destas pessoas que recebiam o almoço. “Passei um ano pegando comida e digo que eles me ajudaram não só a sair de onde estava, como também me deram uma nova visão de vida”.

Elcio, que é conhecido como ‘Polaco’, tinha problemas com o álcool e recebeu o incentivo de fazer um tratamento. “Quando saí do tratamento, que durou nove meses, eles me chamaram para trabalhar com eles e hoje cuido do estacionamento e também de receber os produtos para o estoque. Minha vida foi ‘do vinho, para a água’ e não é brincadeira. Me deram uma oportunidade que nem eu imaginei que um dia teria”.

Além de Elcio, que já trabalha no restaurante há seis meses, Adriano Mikosz, de 43 anos, é um funcionário que tem duas missões importantes: a de servir as refeições às pessoas carentes e, todos os anos, há 26 anos, interpreta Jesus Cristo. “Fazemos a representação da Paixão de Cristo na Barreirinha e até me emociona parar para pensar o quanto o que é feito aqui no restaurante tem a ver com o que Jesus fazia em sua vida”.

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Adriano, que todos os anos deixa o cabelo e a barba crescerem, disse que ver as pessoas receberem os pratos de comida é o que lhe motiva a apoiar que seus chefes continuem. “Estou aqui há seis anos e desde quando comecei a trabalhar eles fazem essa ação. Acho que as pessoas que reclamam deveriam, pelo menos, olhar para si mesmas. O respeito é a base de tudo e o que nós temos aqui, por essas pessoas que buscam comida todos os dias, é isso”.

Emocionado, Sérgio, o proprietário do restaurante, concluiu à reportagem que entende o que ele e sua sócia fazem como uma missão. A força disso, para eles, se faz tão importante que já entendeu os sinais de que não deve parar. “Dias atrás vieram 36 pessoas e nós só tínhamos comida para 30. Resolvi entregar a comida que eu tinha separado para mim, mas ainda assim faltaria. Acabou que encontramos no microondas uma bacia de arroz que não sabemos até hoje de onde surgiu, mas foi o que tornou possível entregarmos comida a todo mundo. Entendi isso como um sinal de Deus, me mostrando que eu devo continuar”.

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Sobre o autor

Lucas Sarzi

Jornalista formado pelo UniBrasil.

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46 Comentários em "Restaurante de Curitiba serve marmita aos necessitados e causa polêmica na vizinhança"


wilson nunes da silveira nunes da silveira
wilson nunes da silveira nunes da silveira
14 dias 1 hora atrás

Para bens meus amigos eu tinha panificadora aí próximo gosto muito deles não parem tem todo meu apoio se morasse ainda em Curitiba iria ajudá-los Deus ajude vocês

Fabio Leoni
Fabio Leoni
14 dias 6 horas atrás
Somente pelo Nick dessa turma já pra perceber o quanto vale dar atenção a eles. Sou cliente do Restaurante Anita a varios anos e muitas vezes fui almoçar próximo ao horario de fechamento e percebi a fila formada para receberem o almoço. Nunca me senti incomodado com isso, muito pelo contrário, sempre dei prioridade de frequentar o Res. Anita não somente pelo excelente atendimento e pela comida cujo a qualidade é muito acima da média da região, mas também como uma forma de fazer parte e contribuir a gesto de caridade deles. Mas o Sérgio e a Eliz devem seguir… Leia mais »
Ciências  Médicas
Ciências Médicas
14 dias 4 horas atrás

Em qualquer país do mundo, ensina-se a pescar. Dar a vara e o peixe piora a situação. Por que cria o comodismo.

Tekomo Ohabo
Tekomo Ohabo
15 dias 22 horas atrás

Anita? Vão, malandros!

Oscar Aglio
Oscar Aglio
16 dias 4 horas atrás

Eu passo longe de um local como este. Imagine você tentando comer, com um fedor de falta de banho, bunda suja e mijo do seu lado. Mas não condeno quem pensa o contrário. Apenas não nasci para caridade. E fim de papo.

Tekomo Ohabo
Tekomo Ohabo
15 dias 22 horas atrás

Onde assino?

Lutador Antifascista
Lutador Antifascista
16 dias 9 horas atrás
Eu fico em dúvida quanto a situação, ao mesmo tempo que os donos do restaurante fazem por amor uma caridade aos necessitados, aos moradores de ruas e muitos trabalhadores carentes e humilhados pela nossa sociedade perversa, por outro lado também acabam chamando a atenção dos usuários de drogas e até de marginais e desocupados que ficam permanentemente na região pelo estímulo da comida oferecida de forma diária e gratuita. Se eu fosse um comerciante ou morador da região do restaurante Anita também ficaria preocupado, afinal a violência esta aumentando e estimular que gente desconhecida fique perambulando na região não é… Leia mais »
Oldboy
Oldboy
16 dias 12 horas atrás

‘Parabéns ao casal’ … a nova cracolândia da Barreirinha se chamará ”’CRACOLÂNDIA ANITA’. Não é assim que se resolve os problemas dos moradores de rua. O Estado tem que retirá-los da ruas, alimentá-los e arranjar emprego para eles. Criar nas ruas moradores com a comida que não queremos e roupa velha não funcionou.. há séculos.

Clovis Clóvis
Clovis Clóvis
16 dias 6 horas atrás

Torço para que você esteja fazendo algo por eles, além de criticar que faz

Oldboy
Oldboy
16 dias 3 horas atrás

Costumo cobrar do Poder Púbico o uso correto de nosso dinheiro arrecadado através de impostos, os mais altos do mundo, proporcionalmente. Também costumo debater com as pessoas acerca de que essas caridades não resolvem nem de longe o problema dos moradores de rua, pelo contrário, até pioram… Faz com os conservemos essas pessoas doentes nas ruas… prejudicando elas mesmos e quem é afetado por essa situação.. Note a Praça Tiradentes… há vários imóveis para alugar, prédios depredados, pichados… Quem quer morar ou trabalhar num ambiente infestado de pessoas doentes, drogadas, imundas… algumas passíveis de cometerem crimes.

Mario Quisero
Mario Quisero
16 dias 12 horas atrás

maravilhosos !!! esta é a definição destes dois jovens sócios do restaurante que fazem este ato de extrema caridade humana; como diz o ditado: “mais abençoada são as mãos que ajudam que os lábios que rezam” isto deveria ser um ato normal da humanidade mas infelizmente é uma excessão pois nós enquanto somos humanidade precisaríamos viver realmente numa humanidade independente de ter religião ou não; vida longa aos dois, que tenham sucesso nos seus empreendimentos e fica o excelente exemplo de como deveria ser a humanidade com muito mais “UBUNTU” (pesquisem no google e youtube o que significa)…

Adriano
Adriano
16 dias 16 horas atrás

É claro que os robozinhos que elegeram esse pseudopresidente que temos atualmente vão criticar a iniciativa dos donos do restaurante, mas temos que apoiar sim, ainda mais em tempos de um desgoverno que dentre outras maldades, praticamente acabou com o direito do pobre se aposentar, o que significa que muitos simplesmente não terão nem como comprar o básico. Que Deus ilumine os benfeitores e que mais pessoas com essa mentalidade surjam

Carlos Alberto
Carlos Alberto
16 dias 18 horas atrás

Mais engraçado são os comentários…

Tom Redblack
Tom Redblack
16 dias 19 horas atrás

Toda atitude em ajudar pessoas carentes é sempre bom porém como exemplo, no bairro santa felicidade há uns 8 anos uma mulher teve essa ideia servindo sopas, o resultado foi deplorável, o que era uma região tranquila aos poucos os problemas fora aparecendo, gente mal encarada, arrombamentos e assaltos! Particularmente não gostaria que servissem comidas ao lado da minha casa!

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