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Curitiba

Enquanto ‘gigantes’ fecham as portas, Livrarias Curitiba sobrevive e prospera

Maria Luiza Piccoli

O ano é 1970. Em pleno horário comercial de uma semana qualquer, o simpático “italianão” se destaca no meio da multidão que circula no curto trecho que liga a Rua Voluntários da Pátria ao calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba. Camisa alinhada e calça social, ele cumprimenta a lojista que varre a entrada da loja de tecidos. Mais à frente, dois rapazes descarregam um caminhão na calçada. “Bom dia”, diz ao passar. Na Boca do Brilho, um engraxate acena. “Oi seu Valentim”. Ele retribui com um sorriso. Finalmente chega a seu destino. É hora de trabalhar. Sacando um pente do bolso da camisa, ele alinha cuidadosamente os cabelos, afinal, aparência conta muito na hora de atender os clientes. Antes de entrar, o jovem senhor observa orgulhoso, a fachada da loja recentemente inaugurada, fruto de seu próprio suor e dedicação, a então chamada “Livraria Curitiba”.

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Relatada por Rute Pedri, diretora de marketing da Livrarias Curitiba e filha de Valentim Pedri – já falecido – a cena retrata a rotina do empresário, durante os 20 primeiros anos no qual se dedicou à expansão do comércio que, ao longo das décadas seguintes, se tornaria uma dos principais do Brasil no segmento de livros. Apesar da crise do mercado editorial registrada desde 2015 e dos reflexos significativos que recaíram sobre o comércio livreiro de todo o país, a empresa “ajustou as velas” e contra a maré conseguiu superar o período de vacas magras, mantendo-se firme entre as mais respeitadas do setor no mercado nacional e as mais “queridas” entre o público paranaense quando o assunto é tradição no comércio de livros.

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R$ 1,4 bilhão. Esse foi o déficit registrado no mercado de editoras nos últimos três anos, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Com um decréscimo maior que o do Produto Interno Bruto (PIB), o setor livreiro foi atingido em cheio pela crise política, primeiro pela imediata falta de investimentos da indústria e, segundo, pela retração do próprio consumidor, tendo o número de lojas reduzido em 20% desde 2013 em todo o território nacional, segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL).

Rute Pedri, diretora de marketing da Livrarias Curitiba e filha de Valentim Pedri, fundador da empresa. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná
Rute Pedri, diretora de marketing da Livrarias Curitiba e filha de Valentim Pedri, fundador da empresa. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná

Perseverança, redução de custos e melhor capacitação das equipes. Segundo Rute Pedri, essas foram algumas das estratégias utilizadas pelos gestores para driblar a crise. “Meu pai se dedicou muito à gestão de pessoas e valorização dos funcionários. Ele deixou isso sempre muito claro para os filhos, que hoje administram o negócio e mantêm os mesmos princípios”, revela a diretora, que prevê um fechamento 5% maior no orçamento deste ano, em relação ao do ano passado.

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História de sucesso

Tudo começou em 1963, quando a primeira unidade da loja foi inaugurada na Rua Voluntários da Pátria, no Centro de Curitiba. Vindo de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina (SC), Valentim radicou-se na capital do Paraná aos 18 anos. “Ele veio para Curitiba servir o exército. O irmão mais velho dele já morava aqui há bastante tempo e ele veio morar com esse irmão, no bairro Santa Felicidade”, conta Rute. Somados ao serviço militar, os primeiros contatos com o mercado livreiro aconteceram logo nos primeiros anos em Curitiba, quando então, Valentim começou a trabalhar como vendedor na antiga Livraria Globo, também no Centro da cidade.

Com a ajuda de um professor universitário que enxergou seu potencial como gestor, Valentim, então com 34 anos, conseguiu recursos para abrir seu próprio negócio, dedicando-se, no princípio, à venda de materiais didáticos. “Além de gerenciar a loja, mensalmente, ele carregava uma Kombi e saía pelas cidades do interior do Paraná e de Santa Catarina vendendo livros escolares. Com o tempo ele conseguiu reaver o valor investido e devolveu o dinheiro para o professor que o ajudou a abrir a loja”, revela.

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Generoso, religioso e sociável, Valentim veio de família italiana e, a despeito dos costumes sociais da época, valorizava e incentivava o trabalho das mulheres da casa. “Ele colocava todo o mundo para trabalhar em funções iguais. Éramos em oito filhos e todo mundo aprendeu o serviço desde cedo, fosse no caixa, no pacote, no estoque. Ele dizia que para chegar ‘lá em cima’ a gente tinha que aprender desde ‘lá de baixo’”, explica. Fixados no bairro Cabral, os Pedri foram, aos poucos, se especializando para perpetuar o negócio da família. “Cada um estudou uma área diferente e hoje executamos funções distintas no grupo que conta, ao todo, com 29 lojas no Brasil”, revela.

Sempre presente fisicamente nas lojas, foi entre as prateleiras das livrarias que Valentim ensinou aos filhos aquilo que considerava um dos mais fortes valores de uma empresa: a relação com os clientes e funcionários. “Ele dizia que, se você não está lá, o negócio não anda. Com meu pai não tinha esse negócio de ficar só no escritório”, diz. Acostumada aos livros desde a infância, Rute se lembra de brincar com os irmãos entre as prateleiras do depósito do comércio da família. “Nos brincávamos de esconde-esconde e fazíamos a maior farra no barracão que ficava no quintal da nossa casa”, lembra. Entre os fascículos prediletos da sua infância ela destaca a coleção de fascículos “Vamos Sonhar”, da Editora Agir, “Bom Livro” e “Vaga-Lume”, da Editora Ática.

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Entre as décadas de 70 e 80, a Livrarias Curitiba de fato se consolidou diante do público, ampliando a venda de produtos para além do segmento educacional. Seguindo uma política acessível, que permite ao cliente folhear os livros à vontade, a loja investe em projetos culturais e experiências gratuitas como “hora do conto”, “pocket-shows” e clubes de conversação de idiomas. “A ideia é deixar o cliente à vontade dentro das lojas, de forma que, ao entrar, se sinta tão em casa que não queira mais sair”, brinca.

Perspectivas

Na contramão da crise, Livrarias Curitiba se reinventou e segue trajetória de sucesso. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná
Na contramão da crise, Livrarias Curitiba se reinventou e segue trajetória de sucesso. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná

Tendo na relação com público um dos principais pilares da empresa, os oito filhos de Valentim enxergam com positividade a perspectiva para os próximos anos. “Observamos um crescimento importante nas vendas esse ano em relação ao ano passado. Por incrível que pareça as pessoas estão comprando mais livros físicos”, afirma, referindo-se à “competição” com os e-books (livros digitais).

Entre as principais apostas da empresa para ampliação das vendas está o e-commerce, que possibilita a compra online dos produtos. “Estamos investindo em novas tecnologias para ampliar o e-commerce. Ele funciona bem, está sendo bem aceito pelos clientes e nosso crescimento é constante. Hoje atuamos mais fortemente com a B2W, Mercado Livre e Amazon”, explica.

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A longo prazo, segundo Rute, a principal perspectiva da Livrarias Curitiba continua nas mãos da principal instituição responsável pelo negócio: a família Pedri. “Depois do meu pai, nossa geração assumiu. Agora são os 13 netos que começam a se preparar para continuar esse legado que esse ano completa 55 anos”, revela.

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Terreno em Curitiba, antes cuidado por senhor que faleceu, vira alvo dos moradores

Sobre o autor

Maria Luiza Piccoli

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