O homem que gostava de lingerie preta em garotas loiras

A loira chegou ao ponto de ônibus e virou de costas para o homem que esperava solitário até então o Água Verde-Abranches. Em seguida, ela tirou óculos escuros da bolsa e colocou no rosto. Se já era bacana, ficou de matar. Era tarde de quinta-feira, de calor insuportável, amostra grátis do que vai ser o próximo verão. O calor provoca cansaço, suor e perplexidade nos homens. Mas as mulheres com roupas leves esbanjam sensualidade. Era o caso da loira de óculos escuros.

A gata estava com blusa leve, de mangas curtas, de tal forma que quando levantou o braço para colocar os óculos, foi possível ver uma parte do sutiã por baixo do braço. Manivela chegou neste momento mágico, em silêncio e de olhos atentos. Ele captou o movimento da loira e também viu o sutiã preto, aparentemente da Valisere, coisa fina. Agora eram três no ponto de ônibus. A loira repentinamente olhou para a Avenida Marechal Floriano e desistiu de esperar o ônibus e foi em frente, com um andar sinuoso.

Era loira legitima. De cabelos longos loiros e rosto que lembrava Kate Moss. Mulher de prender a respiração de qualquer sujeito. Não era alta, não era gorda, era charmosa e bonita. E foi embora. Manivela acompanhou-a com os olhos perscrutadores, com vontade enorme de ir junto com ela. Como não foi, virou-se e perguntou para o homem que estava no ponto, mais direto que soco no queixo: “Quando ela ergueu o braço, em que você pensou?”.

O sujeito disse que não sabia. “Acho que não pensei em nada”, respondeu. Manivela disse com a coragem inútil e suicida que teve quando jogava na ponta-direita do Britânia nos anos 60: “Mentiroso, um homem quando vê um pedaço do sutiã de uma mulher, como vimos, sempre pensa em alguma coisa”. Não era suposição. Manivela disse como fosse lei. Ou o homem pensava ou era mentiroso. Ou seja, o homem sempre pensava alguma coisa. Mas se o homem do ponto pensou, preferiu guardar o pensamento com sete chaves.

Manivela, ao contrário, queria liberar o seu aos quatro ventos. Ele disse: “Eu fui jogador. Joguei no Britânia. Não é do seu tempo. Acho que você nem sabe que existiu este time. Mas existiu e eu joguei nele. Não ganhava muito e todo o meu salário de jogador eu gastava na zona. Sempre gostei de mulher. Até hoje. Mas mulher tem que usar calcinha e sutiã e tirar na frente da gente”, disse ele, anunciando uma parte de sua vida.

Manivela acrescentou: “Na hora em que ela ergueu o braço eu pensei na cor da calcinha, se era preta como o sutiã, porque se fosse, seria um conjunto muito bonito, colírio para os olhos ver aquela garota só de lingerie, deitada na cama, esperando por mim. Um colírio para os olhos. Foi nisto que eu pensei”. O outro homem concordou com um movimento de cabeça. Na realidade, para ser sincero, ele também pensou a mesma coisa, mas não tinha coragem de sair falando. O que validava a teoria de Manivela.

Manivela olhou para o homem com expressão estranha, ainda mais estranha naquele rosto de 75 anos, vincado pelo tempo. Ele disse, quase babando: “Sou um sujeito calmo, civilizado e muito bom. Mas se tem algo que me tira do sério, ainda hoje, que me deixa louco, é uma lingerie preta. O conjunto, entende? Nem duas garrafas de uísque me deixam tão doidão”. Ele mordeu as gengivas, balançou a cabeça e acrescentou: “E numa moça loira e bonita, como aquela, lingerie preta é nitroglicerina pura”.

O Água Verde-Abranches chegou e, antes de subir ao ônibus, Manivela segredou: “Eu já comprei várias calcinhas pretas só para ficar olhando e imaginar o recheio, entende? Rapaz, eu ficava muito doidão”. O homem olhou assustado para Manivela, passou a catraca e se escondeu no fundo do ônibus. Manivela ainda olhava pela janela, procurando pelas ruas de Curitiba a loira do sutiã preto.