Quando escreveu “1968, o ano que não terminou”, o escritor Zuenir Ventura relatou com o coração rasgado os acontecimentos que ficaram marcados na história do Brasil e do mundo. Numa festa de réveillon, estudantes e intelectuais acreditavam que aquele seria um ano muito especial, com muitos sonhos a se concretizarem e, em comum, todos suspeitavam que 1968 ficaria para sempre como um quadro na parede. E como iria doer.

O ano de 2015 vai ser conhecido no futuro como “o ano que não vai terminar”. Além de 1968, este malfadado 2015 lembra o ano de 1988, que de tão ruim – de tão tenebroso nas mãos de José Sarney -, o irreverente jornalista Horácio Braun resolveu abreviar nosso sofrimento e fazer uma festa de Réveillon para 500 pessoas na virada do dia 31 de julho para 1º de agosto. “Vamos virar a página da folhinha!” – conclamava o falecido Horácio, um dos inspiradores da Oktoberfest de Blumenau e até hoje personagem insubstituível em Santa Catarina.

Ao mobilizar a cidade e trazer muitos amigos de todo o país para a festa de despedida de 1988, Horácio virou notícia não só da imprensa nacional, ao ganhar inclusive a capa do jornal O Estado de S. Paulo, como também foi destaque no jornal The New York Times pela façanha de cortar pela metade um ano que nunca devia ter existido.

Ao contrário da proposta de Horácio Braun, “2015, o ano que não vai terminar” merece um calendário de eventos próprio, muito além do próximo 31 de dezembro. Sem previsão para acabar, talvez fosse o caso de se transferir o próximo Réveillon para uma data ainda a ser marcada – sabe-se lá quando -, coincidindo com o dia da cassação de mandato do deputado Eduardo Cunha, por exemplo, ou no dia em que o juiz Sérgio Moro der por encerrado os trabalhos da Operação Lava Jato.

Uma coisa é certa. O próximo ano não será igual àquele que passou. Será muito pior. Se 2014 foi o ano que terminou no dia seguinte à vitória de Dilma Rousseff, o ano de 2015 será para sempre associado a três personagens que devem se juntar à galeria dos maiores corruptos, vigaristas e imbecis da história da República: Nestor Cerveró, Eduardo Cunha e Delcídio do Amaral.

Pena que Horácio Braun – jornalista de sete instrumentos – não está mais aí para comandar a fuzarca do ano que um dia há de nascer – sabe-se lá quando! Mas se ainda estivesse organizando a folia, com certeza iria marcar o próximo Carnaval para o dia em que Dilma Rousseff reconhecer que, como gerente da República, já mostrou porque conseguiu quebrar uma loja de 1,99.

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