Muita gente preparando suas campanhas de Outubro Rosa, não é mesmo? Várias empresas, figuras públicas, consultores, etc., vêm colocando a campanha “Outubro Rosa” no nome de suas palestras, em seus materiais de divulgação, sem nem ao menos oferecer conteúdo informativo sobre o tema. Todo ano a campanha faz parte dos planejamentos de comunicação, mas parece não haver uma conversa efetiva sobre a responsabilidade na abordagem do assunto.

Contextualizando, Outubro Rosa é uma campanha de conscientização que tem como objetivo principal alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama e, mais recentemente, sobre o câncer de colo de útero. O movimento surgiu nos Estados Unidos, com ações isoladas em vários estados, o que, mais tarde, fez com que o Congresso Norte-Americano oficializasse o mês de outubro como o mês de prevenção ao câncer de mama. No Brasil, a campanha acontece desde 2002 e a cada ano ganha mais força.

Esses dias recebi um convite para uma palestra, sobre determinado assunto, mas com o nome de Palestra “xxxxx” Outubro Rosa. Na programação, nenhum dos temas tinha sequer menção à campanha ou a orientações sobre o combate ao câncer de mama e de colo de útero. Ao mesmo tempo, não é incomum vermos nas redes sociais e plataformas de comunicação de empresas e de profissionais autônomos, séries de postagens com informações equivocadas para “orientar” as mulheres em suas campanhas de Outubro Rosa. Copia e cola de dicas que já caíram no desuso, sem orientação médica. Morro de medo disso e fico pensando que o “menos pior” ainda é anunciar o nome e realmente não falar nada na programação.

Vejam bem! Fora o erro dos planejamentos de Marketing, em associar o nome da campanha sem nenhum objetivo específico ou missão de realmente obter resultados em conscientização, é imprescindível pensar nas informações compartilhadas com responsabilidade. A informação, seja ela real ou mentirosa, muda vidas e pode salvar ou matar pessoas. Exagero? Não!

À frente da assessoria de imprensa de um hospital de câncer, temos a oportunidade de lidar com diversos tipos de pacientes. Dos mais instruídos aos mais simples. Porém, quando eles pensam em “esperança de cura”, não há diferenciação. Dependendo do que estão vivendo naquele momento e de suas lutas contra a doença, até os mais esclarecidos podem sim, se agarrar a informações sem comprovação científica. E é aí que está o perigo e a nossa responsabilidade em levar à população conteúdo de qualidade, campanhas verdadeiras, e com propósito.

Atualmente, 50% das pacientes com câncer de mama, que chegam ao Hospital Erasto Gaertner, apresentam a doença nos estágios iniciais, nos quais os índices de cura são superiores a 90%. Em relação ao câncer de colo de útero, isso também tem acontecido. Nos últimos dez anos, foi registrado um aumento no número de carcinoma in situ (tumor de crescimento restrito à área de origem) no momento do diagnóstico, o que, certamente, apresenta maiores chances de cura. Para a direção do hospital, os números estão ligados diretamente aos movimentos e campanhas de conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e da informação, uma arma poderosíssima no combate a qualquer tipo de doença.

Vejamos o outro lado agora. Enquanto muitas pessoas aprendem a se prevenir em campanhas importantes promovidas pelos hospitais e órgãos sérios de saúde, a teoria da conspiração já fez muitos pacientes largarem seus tratamentos convencionais e morrerem mais cedo do que se estivessem ainda fazendo seus acompanhamentos. Já vi isso perto de mim, vivenciei na família de um amigo e acompanhei tantos outros casos durante a minha carreira de repórter em várias apurações. É triste! Triste demais saber que a informação errada iludiu e mudou rumos de pessoas que poderiam ter mais chances de viver.

Enfim! O recado que deixo é que, em seus planejamentos de comunicação, tenham responsabilidade com toda e qualquer informação que possa impactar a vida das pessoas. Agregue “Outubro Rosa” com propósito. Crie parcerias com órgãos oficiais e reconhecidos, com profissionais que estudam o assunto e possuem pesquisas científicas embasadas. Deixe seu legado, de fato. A partir do seu nome, da sua marca, mas faça a diferença. É disso que o mundo precisa e não de mais uma campanha com uma “artezinha” bonita para encher feeds, stories e fachadas, sem mudar realidades.

Por Christina Schuler, jornalista, especialista em comunicação empresarial, assessora de imprensa do Hospital Erasto Gaertner e diretora da Daí Comunicação Integrada.