Aposentadoria é tempo para descanso e brincadeiras com os netos. Entretanto, este cotidiano de sonhos pode virar pesadelo para muitos. A vida dos idosos está longe de ser tranqüila e distante de preocupações, como pode parecer. Um estudo realizado por universidades do sul do país investigou os principais sintomas depressivos apresentados pela população idosa. Mulheres, indivíduos com idade avançada e baixa escolaridade são as maiores vítimas da depressão na terceira idade.

A pesquisa, publicada na Revista de Saúde Pública, abordou moradores com mais de 60 anos, residentes em zonas urbanas. O objetivo era avaliar a freqüência de sintomas depressivos e identificar fatores associados à ocorrência desses sintomas. O estudo associou sintomas depressivos às variáveis demográficas, socioeconômicas e comportamentais.

Difícil diagnóstico

A falta de disposição para realizar atividades cotidianas foi o sintoma mais citado pelos idosos: 73,9% dos entrevistados relataram essa característica. E os grupos que mais manifestaram os sintomas da depressão foram mulheres, pessoas mais idosas, com menor escolaridade, sem trabalho remunerado, fumantes e os que sofreram morte de familiar ou pessoa importante no último ano. "Nessa faixa etária há uma diminuição da resposta emocional, acarretando um predomínio de sintomas como diminuição do sono, perda de prazer nas atividades habituais, inquietações sobre o passado e perda de energia", concluíram os pesquisadores.

Mesmo fazendo parte de uma entidade patológica importante, a depressão é pouco estudada, pelo fato de ser de difícil medição e identificação, o que só aumenta a gravidade do problema. O médico Antônio Augusto de Arruda Silveira Júnior, especialista em envelhecimento, lembra que, apesar de sua relevância, a depressão é um distúrbio de difícil mensuração. ?O principal motivo é o fato de que os idosos não possuem bons informantes e, por isso, numa primeira avaliação, os sintomas depressivos podem passar despercebidos?, relata.

Condições socio econômicas

Assim como para outras doenças de caráter crônico, a pesquisa mostrou que a escolaridade é um fator de proteção para a depressão na terceira idade. Essa relação foi encontrada na questão do trabalho remunerado: idoso que trabalha tem menos chances de desenvolver a doença. "Devido à desvalorização que o idoso sofre na sociedade, principalmente nos países em desenvolvimento, esse achado pode indicar que aqueles que se mantêm no mercado de trabalho continuam se sentindo úteis à comunidade", ressalta o estudo.

Apesar disso, os pesquisadores ainda constataram o cotidiano socioeconômico no qu al vive o idoso, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Aqui, muitos idosos são responsáveis pelo sustento da família, seja por meio da participação no mercado de trabalho, seja pelo seu rendimento de aposentadoria. O estudo lembra que, enquanto nos países desenvolvidos o aumento da população idosa é acompanhado por melhorias de suas condições de vida, nos países em desenvolvimento a situação é diferente: "Nesses países a população idosa vem aumentando em um cenário de pobreza e despreparo", comenta a pesquisa.

De acordo com os pesquisadores, o fato de os sintomas depressivos terem sido encontrados em altas proporções nos idosos ressalta a importância de que os profissionais se capacitem a reconhecer as formas mais comuns de apresentação das síndromes depressivas em idosos, dando mais subsídios às investigações médicas rotineiras e permitindo intervenções precoces e eficazes, conclui o estudo.