O Instituto Tecnológico Simepar faz parte de uma rede mundial, a chamada Sferics Timing and Ranging Network (Starnet), para detecção de descargas atmosféricas de longa distância. Um sensor foi implantado em dezembro do ano passado no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, onde o Simepar também está instalado. A partir da capital paranaense será possível verificar a incidência de raios em toda a América do Sul.

A rede Starnet é um consórcio formado por instituições de vários países e que tem por objetivo gerar um banco de dados mundial para pesquisas. Existem sensores em Addis Ababa, na Etiópia; Dar es Salaam, na Tanzânia; Bethlehem, na África do Sul; Ilha de Guadaloupe, no Caribe; e nas cidades brasileiras de Fortaleza (CE), Cachoeira Paulista (interior de São Paulo), Campo Grande (MS) e São Marinho da Serra (RS), além de Curitiba. Atualmente, a rede abrange grande parte da América do Sul, América Central, África e dos oceanos Atlântico e Pacífico. Os dados são abertos para consulta.

O meteorologista Marco Antônio Rodrigues Jusevicius, do Simepar, conta que o instituto paranaense sempre trabalhou nesta área e que a participação na rede mundial dá sequência a estes estudos – mas, agora, mundialmente. “É o reconhecimento do Simepar dentro do cenário mundial”, define.

A partir dos dados de detecção das descargas atmosféricas, haverá uma comparação com informações obtidas anteriormente e de uma determinada região. “A primeira intenção é mapear a frequência das descargas para saber se existem áreas onde ‘caem’ mais descargas ou não. Também queremos saber quais os motivos para que estes locais sejam mais ou menos favorecidos”, explica Jusevicius.

Após a instalação do sensor no Centro Politécnico já foi possível verificar uma maior incidência das descargas atmosféricas em toda a América do Sul. “A longa distância, não conseguimos pegar tudo. Mas, com a ampliação da rede, poderemos começar a detectar, por exemplo, a atividade elétrica na formação de furacões na costa africana, e que depois seguem para o Caribe e os Estados Unidos. Futuramente, com a instalação de mais sensores, a rede terá mais informações sobre isso. Hoje, já é possível ver, mas pouco”, esclarece o meteorologista.

A Starnet não tem o objetivo de se tornar uma rede operacional, que ajude na informação para a população sobre estes fenômenos naturais. Para isso, já existe a BrasilDAT, que faz um acompanhamento do campo elétrico atmosférico do País. O Simepar também faz parte desta rede.

Os mapas com a incidência de descargas atmosféricas (medida por quantidade por quilômetro quadrado por ano) servem de base para a definição da categoria de proteção de sistemas elétricos (para-raios) em edifícios. Outra aplicação é para a defesa e a instalação de linhas de transmissão de energia.

Formação de descargas atmosféricas

Tudo começa na área de carga negativa da nuvem. Pequenas descargas, chamadas de líderes escalonados, procuram o melhor caminho pelo ar na direção das cargas positivas na superfície da Terra. Quando estão muito próximas, ocorre um acúmulo de cargas positivas em locais como topo de árvores, torres e estruturas mais altas. Outros líderes se formam, carregados positivamente, e seguem para cima em busca de conexão com os líderes escalonados. Quando acontece a conexão de um ou mais líderes fecha-se o circuito elétrico e existe a passagem de cargas negativas da nuvem para o solo em poucos milésimos de segundo. Neste momento se atinge o máximo de corrente elétrica e há a emissão de
luz visível (relâmpago).

Oeste do Estado é alvo de estudo

No Brasil, o local com maior incidência de descargas atmosféricas é a região da cidade de São Paulo e alguns municípios vizinhos, principalmente do ABC Paulista. A média é de dez raios por quilômetro quadrado por ano. A região oeste do Paraná também é destaque, com incidência entre oito e nove raios por quilômetro quadrado por ano, em média. No ano passado, o número chegou a dez. Isso aconteceu após a instalação de dois sensores, em um projeto em parceria com Furnas Centrais Elétricas, para evitar danos nas torres das linhas de transmissão de energia que partem da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Mais três sensores serão instalados – em Guaíra, Roncador e Pato Branco – até o final deste ano. Com isso, a detecção será ainda mais abrangente. Mas somente um estudo histórico para averiguar se o registro do ano passado foi algo isolado ou pode ser realmente a média na região oeste paranaense.